SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Com o agravamento da crise no Oriente Médio, o presidente Donald Trump voltou a escalar sua retórica em relação ao Irã nesta quinta-feira (23). O americano disse que está “considerando um ataque maciço, maior do que nunca” contra a teocracia.
A ameaça foi feita em uma entrevista ao site americano Axios, na qual o republicano não estabeleceu um prazo para a decisão. “Estou perto de tomar a decisão. Estamos prontos para isso”, disse ele, ressaltando não haver nenhuma mobilização militar específica.
“Eles [os iranianos] ainda não sofreram dor suficiente”, afirmou, dizendo que uma nova ação irá superar em intensidade as cinco semanas iniciais do conflito, iniciado quando Estados Unidos e Israel atacaram o país persa em 28 de fevereiro.
Aquela foi a fase mais aguda da guerra, tendo deixado estimados 3.500 mortos na teocracia, inclusive seu líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e boa parte da elite política e militar do país.
Segundo Trump, Israel apoiaria uma nova ofensiva generalizada. “Eles se uniriam a nós em dois minutos, se eu pedisse”, afirmou, dizendo entretanto que “nós não precisamos de ninguém” para agir. O republicano admite que, se o Estado judeu voltar a atacar o Irã, “haverá consequências”.
Nos últimos dois dias, bombardeiros estratégicos americanos B-1B voltaram a operar na base britânica de Fairford, elevando a especulação acerca de um ataque. Nesta quinta, a Guarda Revolucionária do Irã disse que isso tornaria a unidade no Reino Unido um alvo militar legítimo.
A nova subida de tom do americano visa forçar os iranianos, até aqui inflexíveis, a negociar uma nova trégua. A fase atual de ataques, definida pelo chanceler iraniano, Abbas Araghchi, como uma troca recíproca “olho por olho”, começou há duas semanas.
No dia 8, Trump disse que o cessar-fogo de 60 dias assinado com o Irã em 17 de junho estava cancelado após a teocracia buscar asseverar o controle sobre o estratégico estreito de Hormuz ao atacar petroleiros que passavam pela região.
O memorando da trégua abriu a possibilidade para que Teerã cobrasse pedágio pelo trânsito na via, que escoava 20% do óleo e do gás natural do planeta antes da guerra. Trump talvez tenha achado que os iranianos não iriam em frente ao tentar se posicionar militarmente durante as negociações, mas se o fez, errou.
Findo o cessar-fogo, as trocas de fogo são diárias, e os EUA estabeleceram um bloqueio naval a portos da teocracia. Um novo elemento surgiu na semana passada, quando os rebeldes houthis do Iêmen, aliados do Irã, responderam ao bloqueio de seu principal aeroporto por forças apoiadas pela Arábia Saudita.
Atacaram a monarquia vizinha e, na segunda (20), decretaram um bloqueio aos portos sauditas no mar Vermelho, que vinham sendo usados para exportar a produção de petróleo do reino que ficou retida devido à crise em Hormuz, no outro lado da península Arábica.
Na quarta (22), os houthis foram às vias de fato, atingindo dois petroleiros com óleo saudita. Os ataques aumentaram ainda mais a tensão no mercado global de petróleo, que viu o barril de referência de contratos futuros ultrapassar os US$ 100 nesta quinta.
Antes da guerra, o preço flutuava em torno dos US$ 60, chegando a um pico de quase US$ 120 no auge dos combates. O cessar-fogo havia derrubado o preço a quase US$ 70, valor que escalou desde a retomada das hostilidades.
Para Trump, a lógica da ameaça é tentar forçar os iranianos a conversar, o que parece bastante difícil até aqui. Isso coloca o presidente num impasse: se cumprir o prometido e retomar uma guerra ampla, o custo político poderá ser insustentável.
Pesquisas apontam que quase 70% dos americanos são contra o conflito, que fez o preço dos combustíveis aumentar no país. E Trump enfrenta o risco de perder o controle das duas Casas do Congresso nas eleições legislativas de novembro.
Trump pode considerar que uma escalada violenta agora poderia dobrar os iranianos, dando tempo para a situação política e econômica se acalmar até o pleito.
O problema desse raciocínio é que a teocracia não deu sinais de ceder mesmo quando foi duramente alvejada, além de não haver garantia de que a turbulência global e seu reflexo no eleitorado americano poderão arrefecer.



