FOLHAPRESS – “Pillion” é uma produção britânica relativamente modesta, mas que pouco a pouco foi ganhando capilaridade e mesmo certo culto entre o público LGBTQIA+. Deveria estrear nos cinemas brasileiros, mas questões internas da empresa que comprou os direitos de distribuir o longa no Brasil fez com que passasse reto pelas salas, indo diretamente para o streaming.
Se a temática tem a ver com isso ou não, é difícil saber, mas o fato é que o filme do iniciante Harry Lighton se empenha em abordar a sexualidade gay sob um prisma menos corriqueiro no cinema mais comercial, o do sadomasoquismo. Sem demonizar tal prática ou analisá-la puramente em termos de degradação moral sofrer e incutir sofrimento são mostrados como uma forma de prazer consentido, como tantos outros.
A trama tem como centro o inseguro Colin, socialmente visto como feioso e desinteressante, mas que se insere com perfeição nas expectativas do belo e desejado motoqueiro Ray. Colin se apaixona logo de cara pelo bonitão, um sujeito frio e arrogante que aprecia sexo desde que possa ter domínio total sobre o parceiro, exigindo completa submissão inclusive fora da cama.
Em tudo, é Ray quem dá as ordens, e o domesticado Colin precisa obedecê-las, entre fazer compras e preparar a comida do parceiro. Em uma cena hilária, Ray dá tapinhas no sofá na hora da refeição, e Colin acha que que o namorado o está convidando para comer do seu ladinho. Ledo engano. É o cachorro que ele chama na poltrona. E após a satisfação sexual do dominador, o dominado que vá dormir no chão, sem chatear o macho alfa da relação.
É um convívio com algum nível de toxicidade, por certo, mas aqui isso faz parte de um contrato informal entre os envolvidos. E o filme até ganha tons de maior ousadia quando sugere que nas relações tóxicas em geral existe um elemento sádico de um lado, mas também um certo masoquismo do outro.
Mas “Pillion” evita polemizar nesse sentido, destacando ali outro aspecto mesmo num relacionamento abertamente sado-maso há limites entre a dor que excita e a que meramente machuca. A questão é: onde uma termina e a outra começa?
Colin é um personagem complexo. Ao mesmo tempo em que se descobre enquanto masoquista e submisso por uma propensão natural, também tem um nível de romantismo muito acentuado. Está sempre no fio de uma afiada navalha quer ser dominado, humilhado, até, mas sente falta de alguma afetividade, por menor que seja.
Vemos o rapaz frequentemente implorar por um pouco de atenção de Ray, mesmo sabendo que será recebido com desprezo, o que lhe traz enorme sofrimento. Mas eis o ponto essa dor também é parte do arcabouço de prazeres que compõem sua personalidade masoquista. A questão de Colin parece insolúvel.
Com o tempo, vemos que Ray, apesar de sua pretensa autoconfiança, é a real personalidade insegura do casal. Não sabe lidar com qualquer indício de comportamento que o faça sair de sua casca de indiferença; desestabiliza-se quando isso ocorre.
É sentimentalmente imaturo e ainda mais vulnerável que Colin apesar da impecável musculatura, é ele o “fraco” do relacionamento. A despeito de sua arrogância, seu sadismo parece tanto uma característica sexual quanto uma proteção, talvez um pavor de ser descoberto.
Lighton é um cineasta mais propenso ao romantismo que à perversidade e à perversão, então “Pillion” traz um horizonte mais promissor, reconfortante ao protagonista do que talvez acontecesse com ele na vida real. Nesse sentido, a obra tem parentesco com outro famoso longa indie sobre sadomasoquistas, “Secretária”, de Stephen Shainberg, embora o filme de 2002 tivesse um senso de absurdismo cômico mais depurado.
“Pillion” traz cenas de nudez e práticas BDSM, mas não é em nada um filme que choque ou escandalize. Existe uma certa delicadeza na condução das cenas, e há suavidade na performance de Melling, como Colin, e mesmo na de Skarsgard, na pele de Ray, abarcando humor e poder de comoção.
Lighton não é um sensualista ou mesmo um provocador está mais próximo de um bom moço que apenas se dispôs a falar de sexo pouco convencional. O que nos faz conjecturar o quanto o material poderia ter se tornado mais instigante se tivesse ido parar nas mãos de um diretor que realmente se dedicasse a levar o tema até as últimas consequências.
Algo que os grandes mestres do sadismo, como um Erich von Stroheim, um Lars von Trier ou um Michael Haneke, já nos mostraram em alguns de seus filmes, indicando o que uma personalidade artística de fato perversa pode fazer cinematograficamente. Mesmo que o resultado oscile entre a mais pura genialidade e o doentio.
Mas “Pillion”, enquanto projeto, opta pela leveza e a capacidade comunicativa ao falar de um tema que poderia render uma obra por demais agressiva e, nesse sentido, o longa é bastante satisfatório. Pode até não proporcionar nenhum prazer extremo, mas tampouco é meramente sofrimento gratuito.
PILLION
– Avaliação Bom
– Onde Disponível para compra e aluguel nas lojas digitais
– Classificação 18 anos
– Elenco Harry Melling, Alexander Skarsgard e Douglas Hodge
– Produção Reino Unido, Irlanda, 2025
– Direção Harry Lighton



