BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Um dos principais frigoríficos da JBS, a unidade exportadora da empresa localizada em Mozarlândia (GO) teve os planos de qualidade reprovados por fiscais do Ministério da Agricultura e Pecuária devido a falhas identificadas por auditoria realizada pela União Europeia.

Conforme informações obtidas pela reportagem, técnicos europeus estiveram no Brasil em maio para avaliar o funcionamento do sistema oficial brasileiro de inspeção sanitária, conduzido pelo ministério. Frigoríficos, laboratórios e outras unidades envolvidas em controles oficiais foram visitados.

A planta da JBS em Mozarlândia, uma das unidades visitadas, é defendida pela companhia controlada pela holding J&F Investimentos, dos irmãos Wesley e Joesley Batista, como uma das principais “vitrines de exportação” de carne bovina da empresa em todo o mundo. A unidade abate cerca de 2.000 cabeças de gado por dia nas linhas de produção.

Após a conclusão do trabalho pela missão europeia, o SIF (Serviço de Inspeção Federal) do Ministério da Agricultura voltou a avaliar a planta, para checar mudanças em procedimentos sanitários e de produção que o órgão já tinha apontado como necessárias para atender às exigências do bloco europeu. O órgão de controle reprovou a unidade.

Questionada sobre o assunto, a JBS declarou, em nota, que “cumpre rigorosamente os protocolos sanitários” exigidos por todos os mercados em que atua. “Os apontamentos mencionados são pontuais, inerentes à rotina de fiscalização, e não representam risco à segurança dos alimentos nem comprometem a qualidade do produto final”, declarou a companhia.

A reportagem questionou o Ministério da Agricultura sobre o assunto por emails enviados na terça e quarta-feira (22). Não houve resposta do ministério até a publicação desta reportagem.

Em um atestado de reprovação formalizado em 1º de julho, a fiscalização aponta que as falhas da planta estão ligadas a “deficiências identificadas durante a missão da União Europeia”, sendo boa parte delas recorrentes.

Uma das críticas diz respeito ao carimbo oficial de salubridade. O Serviço de Inspeção Federal usa o carimbo para certificar as carnes destinadas à exportação. Os fiscais apontam que há falhas no processo que garanta a manutenção do carimbo após etapas como lavagem das carcaças e aplicação de produtos nas câmaras de resfriamento da unidade.

A deficiência no controle de pragas, como a falta de monitoramento de armadilhas para moscas, é outro problema mencionado. Os agentes da Agricultura criticam, ainda, o controle de processos sobre partes dos animais que a exigência sanitária determina separar e descartar, além de falhas na organização para o processamento de vísceras dos animais.

Além de questões operacionais, o SIF critica a gestão da qualidade da empresa. “Nota-se a falta de análise crítica por parte da Garantia da Qualidade ao validar as medidas propostas”, afirma a fiscalização. “A validação de planos de ação superficiais, que não investigam a causa raiz das não conformidades, tem resultado na recorrência dos desvios”.

A reportagem teve acesso a laudos. Em uma das manifestações, o SIF fala de “ausência de medidas preventivas que atuem na causa raiz [dos problemas], de forma que garanta o cumprimento integral da legislação do mercado europeu”.

O apontamento já tinha ocorrido em junho, em ao menos outras duas manifestações, indicando que, na avaliação dos fiscais, as ações e respostas dadas pela empresa continuavam insuficientes.

Nesta semana, em 20 de julho, a fiscalização voltou a reprovar o “plano de ação da unidade”, ao afirmar que a JBS não tinha sanado a maioria das falhas apontadas e que recorria regularmente à promessa de treinar seus funcionários como solução dos problemas.

Apesar das sucessivas reprovações desde o início deste ano, o ministério não suspendeu as exportações da planta nem aplicou sanções.

As normas da pasta, porém, preveem que diante de não conformidades relevantes em estabelecimentos habilitados para envio ao exterior, o Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal pode determinar, conforme a gravidade do caso, a suspensão cautelar da habilitação para exportar, total ou parcial, até que as falhas sejam sanadas.

Em maio, a China autorizou a unidade da JBS em Mozarlândia a retomar as exportações depois de ficar temporariamente suspensa desde março de 2025 devido a questionamentos sobre o sistema sanitário.

Em julho do ano passado, a unidade foi autorizada a exportar carne para o Vietnã, fazendo o primeiro embarque de carne bovina àquele país.

O endurecimento da fiscalização do Ministério da Agricultura ocorre em um momento em que a União Europeia amplia exigências sanitárias e ambientais para a importação de alimentos. Além dos controles tradicionais sobre segurança dos produtos, o bloco reforça auditorias sobre o funcionamento dos sistemas de inspeção dos países exportadores.

Este movimento ocorre após o veto europeu à importação de carne brasileira, oficializado em maio e sem data para ser revisto. Quando o Brasil conseguir demonstrar que se adequou às regras sanitárias, os embarques serão novamente autorizados.