WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – O FMI (Fundo Monetário Internacional) avaliou que a economia brasileira continua demonstrando “notável resiliência” diante de uma sequência de choques externos e considerou que o impacto macroeconômico das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos tende a ser modesto.
Em relatório divulgado nesta quinta-feira (23), após a conclusão da consulta anual do Artigo IV, o fundo também afirmou que o governo precisará promover um ajuste fiscal mais ambicioso para colocar a dívida pública em trajetória consistente de queda e projetou inflação de 5,6% ao fim de 2026, acima da meta de 3%.
Apesar das tensões comerciais, o FMI avaliou que as exportações brasileiras têm permanecido resilientes. O relatório lembra que as tarifas impostas pelos Estados Unidos chegaram a uma alíquota efetiva de 29,1% em agosto de 2025 e que as vendas brasileiras ao mercado americano caíram inicialmente, mas passaram a se recuperar a partir de novembro daquele ano.
Segundo o fundo, o impacto macroeconômico das medidas foi limitado porque as exportações para os Estados Unidos representavam menos de 2% do PIB brasileiro antes da elevação das tarifas e porque o país ampliou as vendas para outros mercados, especialmente de soja para a China.
O FMI também mencionou a proposta apresentada pelos Estados Unidos após a conclusão da investigação da Seção 301, que prevê uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, além de uma sobretaxa de 12,5% que deve ser anunciada até o fim de julho ao Brasil e a outras economias, com isenções para itens como café, carne bovina, produtos energéticos e peças de aeronaves.
Caso as medidas entrem em vigor, o FMI avalia que seu impacto sobre a economia brasileira deverá ser “modesto”, devido ao grande número de exceções e ao fato de os Estados Unidos responderem por cerca de 11% das exportações brasileiras em 2025.
Para o Fundo, o Brasil foi relativamente protegido da disparada do petróleo causada pela guerra no Oriente Médio. O país é exportador líquido da commodity e conta com uma matriz elétrica predominantemente renovável. Ainda assim, o aumento dos preços da energia deve pressionar a inflação ao longo do ano.
O FMI prevê crescimento de 2,4% em 2026, impulsionado pelos termos de troca favoráveis decorrentes do petróleo mais caro e pelo apoio fiscal. Em 2027, a economia deve perder força em razão da política monetária ainda restritiva, mas o crescimento tende a voltar para cerca de 2,5% no médio prazo, sustentado pela reforma tributária aprovada em 2023 e pela expansão da produção de petróleo e gás. A inflação, segundo o Fundo, deve convergir para a meta de 3% apenas em meados de 2028.
A diretoria do FMI afirmou que a política monetária brasileira deve permanecer “dependente dos dados e flexível” diante da elevada incerteza global. A instituição também considerou “apropriada” uma normalização dos juros mais lenta do que a esperada antes da guerra no Oriente Médio e avaliou que um esforço fiscal mais robusto ajudaria a reduzir a inflação e a abrir espaço para cortes adicionais na taxa básica de juros.
Apesar da avaliação favorável, o FMI alertou que os riscos permanecem elevados. Entre eles estão um agravamento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, o avanço das disputas comerciais globais e um ajuste fiscal inferior ao esperado, cenário que poderia elevar a inflação, aumentar os custos de financiamento e reduzir o crescimento econômico.
Na avaliação do conselho executivo do fundo, o governo brasileiro deveria aproveitar receitas extraordinárias provenientes do petróleo para reforçar as contas públicas, em vez de ampliar gastos. O FMI também recomendou reduzir rigidezes orçamentárias, revisar benefícios tributários considerados ineficientes e fortalecer o arcabouço fiscal com uma âncora de médio prazo para a dívida, preservando ao mesmo tempo os programas sociais direcionados à população mais vulnerável.
Além da política macroeconômica, o FMI destacou que o sistema financeiro brasileiro permanece sólido, com bancos bem capitalizados e riscos sistêmicos sob controle. Ainda assim, recomendou reforçar a supervisão do setor financeiro, enfrentar o crescimento do endividamento das famílias e avançar na regulação de criptoativos e na proteção contra ataques cibernéticos.
O relatório também elogiou o avanço das reformas estruturais, especialmente a implementação da reforma tributária sobre o consumo, considerada um dos principais fatores para elevar a produtividade nos próximos anos.
O fundo ainda incentivou o Brasil a ampliar a participação feminina no mercado de trabalho, investir em inteligência artificial e qualificação profissional, fortalecer políticas anticorrupção e continuar implementando o Plano de Transformação Ecológica. Na área internacional, destacou positivamente a estratégia brasileira de ampliar acordos comerciais e afirmou que o país tem desempenhado um papel relevante na defesa do multilateralismo e de um sistema internacional de comércio baseado em regras.



