SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) – A cidade de Maranguape, na região metropolitana de Fortaleza, fechou o ano de 2025 como o município com maior taxa de mortes violentas do Brasil entre aqueles com mais de 100 mil habitantes.
Foram 100,3 mortes violentas intencionais para cada 100 mil moradores uma taxa cinco vezes superior à média nacional, de 19,1 por 100 mil habitantes, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
É o segundo ano consecutivo que a cidade cearense ocupa a primeira posição do ranking do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No ano passado, a taxa de mortes violentas foi de 79,9.
O levantamento inclui homicídios dolosos, lesões corporais seguidas de morte, roubo seguido de morte, feminicídios, e mortes decorrentes de intervenção policial.
A escalada de mortes violentas em Maranguape é impulsionada por uma disputa por controle do território entre facções com atuação nacional, associadas a grupos criminosos locais.
Localizada na Grande Fortaleza, Maranguape possui uma posição estratégica por estar próxima do aeroporto e de importantes corredores rodoviários, como a CE-065 e a BR-222, utilizados como rotas logísticas para o tráfico de drogas.
Nos bairros da periferia da cidade, muros são pichados com ordens de grupos criminosos para os carros andem com os vidros abaixados e motociclistas circulem sem capacete. Em julho de 2025, a reportagem da Folha de S.Paulo esteve na cidade e precisou deixar o município após sofrer ameaças de dois homens.
Maranguape não vive uma situação é isolada. O município é parte de um cinturão de cidades da Grande Fortaleza que aparecem entre as mais violentas do país em 2025, segundo o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Maracanaú, quarta maior cidade do estado com 251 mil moradores, aparece na terceira posição dentre os municípios mais violentos do país, com taxa de 80,7 mortes por 100 mil habitantes,
Em sétimo lugar aparece Caucaia, segunda maior cidade do estado com 378 mil habitantes. O município, que registrou uma taxa de 66,6 mortes violentas para cada 100 mil habitantes, fica nas proximidades do porto do Pecém e da BR-020, o que a transforma em área estratégica para o tráfico.
A proximidade com portos e rodovias são um elemento comum entre as cidades cearenses com maior taxa de mortes violentas.
Para o Fórum Brasileiro de Segurança, as rodovias funcionam como corredores logísticos para o transporte de drogas pelo interior do país, enquanto os portos são utilizados como rotas de saída da cocaína para o mercado internacional.
Em fevereiro de 2025, por exemplo, a Polícia Federal apreendeu cerca de 450 quilos de cocaína nos portos de Pecém e Mucuripe, escondidos em contêineres para exportação de cera de carnaúba e polpa de manga congelada.
Oitavo estado brasileiro em população, o Ceará registrou no ano passado uma redução de 7,5% no número de assassinatos, mas segue entre as unidades da federação mais violentas do país, cenário que faz da segurança o principal desafio do governador Elmano de Freitas (PT).
Proporcionalmente, o Ceará é o terceiro estado do país com maior taxa de mortes violentas. Em números absolutos, fica em quatro lugar, com 3.220 mortes, atrás de Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.
Nos últimos anos, o Comando Vermelho, facção com origem no Rio de Janeiro, avançou sobre áreas dominadas pelo cearense GDE (Guardiões do Estado) nos últimos anos. Para fazer frente ao inimigo externo, a facção local se aliou ao TCP (Terceiro Comando Puro), outra facção originária do Rio.
A presença mais ostensiva dos grupos criminosos com atuação nacional veio acompanhada de práticas como a exploração ilegal dos serviços de internet, a extorsão de moradores e comerciantes.
“Há um movimento de disputa entre as facções muito violento, que aumenta a letalidade porque eles têm métodos de dominação na base da violência. Isso está acontecendo no Brasil todo. Não é uma peculiaridade do Ceará”, disse à Folha de S.Paulo em novembro de 2025 o secretário estadual de Segurança Pública, Roberto Sá.
Outro fenômeno associado à presença das facções que preocupa é a expulsão de famílias de suas casas por determinação de criminosos, prática registrada em municípios como Caucaia, Maracanaú, Maranguape e Fortaleza, segundo o Fórum.
A Secretaria de Segurança Pública do Estado identificou ao menos 219 casos de deslocamentos forçados de famílias no Ceará no período janeiro de 2024 e setembro de 2025, o que equivale a dez casos por mês no período. O levantamento cruzou dados dos registros policiais e informações de inteligência.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará informou que os municípios cearenses mencionados no Anuário apresentaram redução nos índices de mortes violentas no primeiro semestre de 2026.
Também destacou o trabalho dos agentes de Segurança Pública do Ceará, que resultou na apreensão de 725 armas de fogo em 2025 apenas nas cidades de Maranguape, Maracanaú e Caucaia. As prisões em flagrante e por cumprimento de mandados de prisão também cresceu no ano passado nesses municípios, com 261 pessoas detidas.
A secretaria também apontou a nomeação de 5.000 novos profissionais de segurança desde 2023 e destacou a criação do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Região Metropolitana de Fortaleza, com com quatro delegacias para investigar as mortes violentas em Caucaia, Maranguape, Maracanaú e Pacatuba.
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Municípios com maior proporção de mortes violentas intencionais
Taxa por 100 mil habitantes
Maranguape (CE) – 100,30
Eunápolis (BA) – 85,10
Maracanaú (CE) – 80,7
Porto Seguro (BA) – 71,2
Simões Filho (BA) – 68,10
Jequié (BA) – 67,4
Caucaia (CE) – 66,60
Cabo de Santo Agostinho (PE) – 65,10
Santa Rita (PB) – 60,90
Juazeiro (BA) – 55,80
Fonte: 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública



