BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O governo e lideranças do centrão apontam erro estratégico de Flávio Bolsonaro (PL) na declaração desta terça-feira (21), em que fez afirmação falsa sobre as urnas eletrônicas. Integrantes do PT afirmam que o discurso acabou com a tentativa de moderação do pré-candidato à Presidência. Já o centrão aponta que o senador atraiu para si um tom derrotista ao tentar resgatar um assunto considerado pelo grupo como “página virada”.
“A tentativa de apresentar Flávio como um candidato moderado era uma estratégia fadada ao fracasso. Ele é o que é, um bolsonarista raiz, e como tal flerta com o golpismo, os ataques às instituições e com uma postura submissa, entreguista a interesses estrangeiros. A melhor definição de Flávio partiu de Donald Trump: Bolsonaro Júnior”, disse à Folha o secretário de comunicação do PT, Éden Valadares.
Em evento que reuniu diplomatas nesta terça, em Brasília, Flávio fez discurso no qual disse que os Estados Unidos denunciaram fraudes nas eleições da Venezuela e que as urnas utilizadas no país são da mesma empresa que fornece equipamentos ao Brasil, o que não é verdade.
“Muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma… Têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, disse.
Ele acrescentou ainda: “O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para as nossas eleições”.
Desde que assumiu sua pré-candidatura, o senador tem tentado passar uma imagem de moderação, pelo menos em comparação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A avaliação do PL era que, se não apostasse nos mesmos discursos do pai, ele poderia recuperar parte dos eleitores de centro e vencer o presidente Lula (PT) na eleição de outubro.
Apesar disso, Flávio passou a enfrentar dificuldades de manter esse discurso, principalmente diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, logo após o pré-candidato visitar Donald Trump e tirar uma foto com o presidente estadunidense. Nesse sentido, a associação, já desmentida, de relação entre urnas brasileiras e uma empresa venezuelana piorou esse cenário.
O deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP) defendeu a retirada de Flávio da corrida eleitoral. “Acho que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) devia não deixar ele ser candidato. O cara não confia na urna eletrônica, como participa de um pleito que acha que não tem segurança?”, afirmou.
No centrão, integrantes de partidos com quem Flávio manteve diálogo, do PP, ao União Brasil e Republicanos, dizem que a declaração só não atrapalhou uma aliança com a sigla porque elas já tinham descartado uma adesão formal à candidatura do PL à Presidência da República.
Anteriormente, parte do centrão havia colocado a moderação como pré-requisito para uma eventual aliança com Flávio Bolsonaro. Uma ala aponta que, ao pôr em xeque a confiabilidade das urnas, o senador não só voltou a um assunto considerado “página virada” como assumiu um tom de “derrotismo” no pleito de outubro.
O grupo diz que tal estratégia, de reunir diplomatas para atacar o sistema de votação nacional, não rendeu bons frutos ao pai de Flávio Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores e atacou as urnas. Ele foi condenado pelo TSE, ficando inelegível por oito anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.
O líder do Republicanos na Câmara, Augusto Coutinho (PE), criticou: “É um sinal do mesmo discurso que a gente já ouviu antes e depois da eleição do pai. São os mesmos sinais, é o DNA. Atrapalha Flávio, sim. Questionar o óbvio mostra unicamente uma questão ideológica”, afirmou o deputado.
Enquanto isso, um interlocutor da pré-campanha de Flávio Bolsonaro minimiza o impacto. Ele argumenta que, nas bolhas da direita, houve pouca atenção para o discurso do pré-candidato sobre as urnas eletrônicas. Reconhece, porém, que a fala municiou influenciadores da esquerda para explorarem o assunto nas redes sociais.
Aliados do senador têm reforçado que a fala dele sobre as urnas não significa nenhum flerte com golpismo e que esse não será um assunto da campanha. Para eles, a fala foi um deslize, um erro ou algo que foi mal interpretado.
Nesta quarta, o presidente do PT, Edinho Silva, disse que o partido avalia acionar a Justiça contra Flávio e equiparou o senador ao pai.
“Flávio Bolsonaro prova que tem a mesma cultura golpista do pai, Jair Bolsonaro, e adota os mesmos métodos utilizados nas eleições de 22”, disse o petista em nota.
O dirigente partidário mencionou que as urnas eletrônicas elegeram diversas vezes o próprio Flávio e outros políticos de sua família.



