SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Aros semicirculares coloridos ocupam metade de uma placa acrílica circular, enquanto, do outro lado, um fragmento disposto verticalmente encontra seu reflexo e completa a forma. Ao redor do objeto, formas industriais coloridas se somam a serigrafias, imagens de arquivo, esculturas e outras obras que incorporam elementos orgânicos e referências de matriz africana, reunindo diferentes momentos da produção do artista Edival Ramosa, morto em 2015.
A obra, que inspira o nome da mostra, é “Estudo para o Sol”, de 1969, um projeto para “O Sol dos Povos de Cor”, também de 1969, realizado em escala humana e posteriormente destruído. A peça é um dos destaques da exposição que percorre cinco décadas da trajetória de Ramosa na galeria Galatea, na zona oeste de São Paulo.
Com curadoria de André Pitol, cocurador adjunto da 36ª Bienal de São Paulo, “Alfabeto Solare” reúne obras produzidas entre o fim dos anos 1960 e a década de 2010. O conjunto é resultado de uma pesquisa que Pitol desenvolve há sete anos e que busca reconstituir a trajetória de um artista brasileiro que se profissionalizou na Itália e que circulou por diferentes vertentes da arte de vanguarda antes de retornar ao país.
Ramosa deixou o Brasil no início dos anos 1960 como cabo do Exército, em missões de paz que o levaram ao Mediterrâneo e ao norte da África. Depois de passar pela região, decidiu permanecer na Itália. Em Milão, cidade marcada pela indústria, pelo design e pela efervescência artística, começou a construir sua trajetória e trabalhou como assistente de artistas como Arnaldo Pomodoro, conhecido por suas esculturas monumentais de formas circulares e superfícies marcadas, e Lucio Fontana, um dos principais nomes da arte espacial e autor dos célebres cortes em telas.
Foi nesse ambiente que Ramosa desenvolveu uma produção que atravessa diferentes categorias hoje frequentemente separadas pela historiografia da arte. Sua obra dialoga com movimentos como o construtivismo, que, desde a vanguarda russa, aproximou a arte da construção, dos materiais industriais e da lógica do design; e com a arte cinética, que explorou o movimento efetivo ou a instabilidade visual produzida pela própria composição. No entanto, o artista participou de exposições em que essas vertentes ainda se sobrepunham e não constituíam categorias estanques.
“Hoje a gente cria diferenças mais categóricas, o que é construtivo, o que não é concreto, o que não é cinético. A gente vê um artista que participou de exposições com essas três terminologias”, afirma Pitol. “Naquele momento, nos anos 1960, aquilo ainda não estava definido.”
A exposição também apresenta, pela primeira vez no Brasil, obras que permaneceram na Itália desde o período em que Ramosa viveu no país. Outras pertencem a coleções brasileiras, como as do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e do Museu Afro Brasil.
É também no deslocamento geográfico que a pesquisa encontra uma das chaves para compreender a transformação de sua obra. No início dos anos 1970, Ramosa passa a incorporar materiais como palha, miçangas e outros elementos naturais e orgânicos à produção, que até então se apoiava mais fortemente em materiais industriais, como acrílico e madeira laqueada.
O movimento, contudo, não deve ser entendido como um simples retorno às raízes brasileiras. Para Pitol, a incorporação de elementos associados a uma cultura afro-indígena ocorre a partir de uma construção realizada no exterior. “Ele não é um romântico que voltou para o Brasil e começou a produzir brasilidades”, afirma.
Segundo o curador, Ramosa relacionava parte dessa transformação às viagens que fez pelo norte da África, especialmente ao Marrocos e ao Egito. A experiência teria alimentado uma nova relação com a materialidade, a cor e o símbolo.
A retomada do artista também se insere em um movimento mais amplo de revisão da história da arte brasileira. Para Pitol, exposições como “Histórias Mestiças”, de 2013, e “Histórias Afro-Atlânticas”, de 2018, ajudaram a criar as condições para que pesquisas mais longas e específicas pudessem ser realizadas.
A ausência de uma monografia sobre Ramosa permanece como um dos dados mais eloquentes da pesquisa. “É um artista com muita coisa, que produziu bastante, que participou de exposições que a gente diz hoje que são importantes, mas que, apesar de tudo isso, não tem nenhum livro”, diz Pitol. “Zero livros.”
A exposição, portanto, não pretende encerrar a redescoberta de Edival Ramosa. Ao contrário, funciona como uma espécie de abertura: uma tentativa de colocar em circulação uma produção que se desenvolveu entre continentes, linguagens e classificações, e que ainda é pouco conhecida.
EDIVAL RAMOSA – ALFABETO SOLARE
– Quando Seg. a sáb. das 10h às 19h. Até 8 de agosto
– Onde Galeria Galatea – r. Oscar Freire, 379, São Paulo
– Preço Grátis



