SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aprovou um acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita que pode permitir o enriquecimento de urânio em território saudita.
O acordo de 30 anos é avaliado em dezenas de bilhões de dólares e dá exclusividade a empresas americanas, segundo autoridades do governo dos EUA ouvidas pelo jornal The Wall Street Journal. A parceria deixa de fora concorrentes da Rússia e da China no desenvolvimento da infraestrutura nuclear saudita.
O texto prevê a construção de uma usina de enriquecimento de urânio se um estudo de dois anos comprovar a viabilidade comercial. Caso os EUA vetem o avanço após o estudo, os sauditas ficam proibidos de buscar essa tecnologia por dez anos.
O tratado deve ser assinado nesta quarta-feira (22) e precisa passar pelo Congresso americano. O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, e o ministro de Energia saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, assinam o documento, que exige dois terços dos votos dos parlamentares para não ser barrado.
O governo norte-americano afirma que o objetivo é garantir que o enriquecimento de urânio ocorra sob sua supervisão. Segundo autoridades do governo Trump revelaram ao Wall Street Journal, a medida evita o desvio de material para fins militares e protege tecnologias sensíveis.
A Arábia Saudita rejeitou regras internacionais rígidas de inspeção e o compromisso de não enriquecer urânio em seu solo. O reino não aceitou o “protocolo adicional” da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) nem o “padrão-ouro” adotado pelos Emirados Árabes Unidos.
A decisão de Trump marca uma mudança em relação à gestão de Joe Biden, que exigia a normalização de relações entre sauditas e Israel. Tanto Trump quanto o ex-presidente Joe Biden tentaram chegar a um acordo nuclear para compartilhar a tecnologia norte-americana.
Casa Branca pressiona o Irã a limitar seu programa nuclear. O anúncio esperado para esta quarta-feira (22) ocorre em meio à guerra contra o Irã, travada pelos EUA e por Israel, em parte, para eliminar a capacidade de Teerã de desenvolver armas nucleares. O Irã insiste que seu programa de enriquecimento nuclear é pacífico.
O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, já declarou que o país buscará armas nucleares se o Irã o fizer. Em 2018, ele afirmou: “A Arábia Saudita não quer adquirir nenhuma bomba nuclear, mas, sem dúvida, se o Irã desenvolvesse uma bomba nuclear, nós faríamos o mesmo o mais rápido possível”.
A Arábia Saudita e o Paquistão, que possui armas nucleares, mantêm um acordo de cooperação em defesa. Após um ataque de Israel ao Qatar contra integrantes do Hamas, o ministro da Defesa paquistanês chegou a afirmar que o arsenal nuclear do país “estará à disposição” dos sauditas, se necessário. A declaração foi interpretada como um recado a Israel, considerado por décadas o único país do Oriente Médio a possuir armas nucleares.
Na tentativa de desenvolver energia nuclear para fins civis, a Arábia Saudita busca um acordo semelhante ao firmado entre Emirados Árabes Unidos e Estados Unidos. Esse entendimento, conhecido como “Acordo 123”, permitiu a construção da usina nuclear de Barakah com tecnologia sul-coreana. Em troca, os Emirados abriram mão de enriquecer urânio, compromisso visto por especialistas como a principal garantia de que o programa permaneceria voltado apenas à geração de energia.
Embora enriquecer urânio, por si só, não seja suficiente para fabricar uma bomba atômica, essa é uma das etapas fundamentais do processo. Um país ainda precisa dominar outras tecnologias e desenvolver sistemas capazes de transformar o material em uma arma. Ainda assim, a capacidade de enriquecer urânio é considerada um passo estratégico que pode facilitar a militarização de um programa nuclear, razão pela qual o avanço do Irã nessa área desperta preocupação entre países ocidentais.



