RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) – A inclusão no programa olímpico de Los Angeles-2028 das provas de 50 m borboleta, peito e costas na natação causou um notável impacto para três nadadores brasileiros, que viram a relação com o esporte ganhar novos rumos. Etiene Medeiros e Nicholas Santos deixaram a aposentadoria, enquanto João Gomes retomou a rotina de treinos após ter iniciado um processo para dar adeus às piscinas.

Nomes conhecidos da natação do país, eles são especialistas na distância e têm no currículo pódios em Mundiais. Agora, trabalham para, enfim, poder disputar as provas que antes eram restritas ao nado livre em uma edição dos Jogos Olímpicos.

‘DECIDI ME DAR ESSA CHANCE’

João Gomes, aos 40 anos, já começava a pensar nos passos futuros após trilhar carreira como atleta, mas os planos deram uma guinada em 180º. Um dos principais nomes do país nos 50 m peito, ele retomou os treinos e quer carimbar o passaporte rumo a Los Angeles.

No ano passado, eu tinha começado um ‘destreino’ para já iniciar a buscar novos horizontes, e recebi a notícia de que os 50 m iam para Los Angeles. Chega até a arrepiar, porque, para mim, é uma satisfação enorme. Fiquei com aquele gostinho: ‘Poxa, no meu auge eu poderia ser medalhista olímpico’.João Gomes

Fui alimentando isso durante o ano. No final de fevereiro, início de março, decidi me dar essa chance de tentar estar, mais uma vez, nos Jogos Olímpicos. Então, juntamente com o Pinheiros, estamos montando uma estratégia para estar pronto, 100% preparado em 2028. João Gomes

Até o começo do ano, paralelamente aos compromissos como atleta, já vinha atuando como secretário de Esportes de Limeira, cidade de São Paulo, e admitia que não vivia mais exclusivamente do esporte, como contou ao UOL no ano passado.

“Venho treinando em déficit calórico. Já perdi 10 kg. Fazer o 26s92 [na classificatória do Maria Lenk], na risca do índice, foi uma emoção enorme, uma sensação de alívio, de poder garantir a vaga no Pan Pacífico e, agora, começa o trabalho para 2028. Estamos indo degrau a degrau. O próximo é estar 100% no Pan Pac, com essa marca gente entra no top 8 do mundo”, contou

O nadador foi medalhista de prata no Mundial de Budapeste, em 2017, e o bronze no Mundial em piscina curta de Abu Dhabi, em 2021. Em maio, levou o ouro no Troféu Maria Lenk.

“As minhas medalhas nas provas de 50 m no individual ficam em uma parede perto da porta de casa. Eu saio e entro em casa olhando para elas. Todo o meu ritual do dia a dia”, conta ele, que brinca sobre dar trabalho aos mais novos. “Até 2028, não vai ter moleza, não”.

‘SE APEGA ÀS FORÇAS DE SER MÃE’

Campeã mundial nos 50 m costas, Etiene Medeiros retornou ao esporte de alto rendimento após mais de três anos afastada das grandes competições. Neste período, a nadadora, nesta quarta-feira (22) com 35 anos, se tornou mãe —Kaleu tem um ano.

“De junho a dezembro do ano passado foi para perda de peso e entender o ritmo em que eu estava. De janeiro pra cá é que, realmente, foi para treinar alta performance e performar. Ainda estamos na reconstrução. Tenho um longo caminho pela frente”, explicou.

Tenho só um ano e meio de pós-parto. É um tempo curto. É uma coisa que eu estou entendendo ainda, os desafios que eu estou encontrando no decorrer do tempo, mas estou muito feliz de estar conseguindo entender os processos e em que momento que estou, se é bater na frente, se é chegar em terceiro, se é conseguir uma final…

Estou em uma prova diferente, nadando apenas 50 metros. Antigamente, nadava muitas provas de 100 metros, revezamentos, e nesta quarta-feira (22) não é assim. Então é uma outra formação para mim. E depois de três anos sem competir, sem treinar, é um outro papel de vida.Etiene Medeiros

A brasileira alcançou o topo do mundo na edição do Mundial de 2017, em Budapeste. Além disso, conquistou a prata nos 50 m costas em Kazan, 2015, e Gwangju, em 2019. Subiu ao topo do pódio também nos Mundiais de piscina curta em Doha, 2014, e Windsor, 2016.

Em Paris-2024, Etiene integrou a equipe de comunicação do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e participou das edições diárias do COBcast. Foi na capital francesa — já com Kaleu a caminho— que a chama olímpica reacendeu dentro dela, e a certeza sobre o retorno às piscinas aconteceu quando soube da entrada dos 50 m em Los Angeles.

Estava em Paris trabalhando. Eu fui grávida. Lá, conversei um pouco com o Fernando Vanzella [técnico] e surgiu a ideia de voltar só para nadar o mundial, 50 m costas, e se divertir no 50 m livre.

Teve um burburinho dentro de mim durante os Jogos, acho que já muita emotiva ali, sentindo a presença do meu filho. Na prova que o [Léon] Marchand ganhou o ouro, o presidente da França presente… Estava na arquibancada e aquilo mexeu muito. Voltei para a Austrália, tive meu filho e aí surgiu essa notícia [dos 50 m em LA].Etiene Medeiros

A atleta ressalta que esse se tornou um “projeto familiar” e que conversou com o marido Fábio para que tomassem uma decisão. “Mexe com muita gente, com muitas estruturas. nesta quarta-feira (22) estamos muito felizes, sabemos dos desafios que passamos. Coloco meu filho para almoçar, jantar, mesmo durante os torneios. Mas é chegar aqui e dar o melhor. Então, estou tendo a oportunidade de ver a natação de uma outra maneira, não como era antigamente”, contou.

Campeã dos 50 m costas no Troféu Maria Lenk, Etiene não escondeu a emoção e desabafou.

Sabemos, nesta quarta-feira (22), o quanto a vida tem os processos, e nos apegamos às forças de ser mãe. É uma coisa que não tem palavras. O esporte feminino está mostrando que tem capacidade, só falta a gente ter suporte, apoio, entendimento das confederações, das pessoas próximas, que a mulher grávida precisa continuar o processo dela. É necessário suporte.

Sem a minha família, sem o meu marido me dando suporte, eu não ia conseguir. Sem o SESI me dando suporte financeiro e estrutural, eu não ia conseguir ter essa habilidade que eu tenho nesta quarta-feira (22) pra poder executar um treino. É isso que queremos: suporte.Etiene Medeiros

‘SÓ POSSO FAZER ISSO AGORA’

Aos 46 anos, Nicholas Santos fez uma mudança radical na vida para focar no objetivo de conseguir uma vaga em Los Angeles-2028. Ele soube da novidade na natação olímpica em uma ligação de Bruno Fratus e, com a decisão tomada, montou um programa para retornar ao alto rendimento após se aposentar em 2022.

Foi um período de três anos aposentado, nadando duas, três vezes por semana. Estava com uma empresa de suplementos e dando palestra. Quando saiu a notícia que a prova dos 50 m de estilo seria uma prova olímpica, o Bruno Fratus me ligou e eu falei: ‘Não sei se eu estou feliz ou triste com isso, porque eu já estou aposentado’.

A partir daí, comecei a tentar entender um pouco melhor qual o impacto seria se eu voltasse, deixar para trás tudo que eu estava construindo, tendo uma carreira que já estava dando uma sequência logo após deixar de ser atleta.Nicholas Santos

“O presidente de um dos patrocinadores, que é um banco, fez uma proposta. Ele falou: ‘Se você estiver disposto a encarar esse desafio, eu te patrocino’. Eu disse que ia pensar e fui tentando amadurecer a ideia. Tive de vender minha parte na empresa para poder me dedicar como atleta profissional de novo. Sei que tem bastante desafio pela frente, temos de voltar ao ritmo das competições. Estou treinando de verdade e tentando ficar cada vez mais competitivo. Montamos um planejamento até o ano que vem, que tem a seletiva, que vai ser uma Copa do Mundo. É um desafio”, completou.

Nicholas é especialista nos 50 m borboleta, e tem quatro medalhas em mundiais — pratas em Kazan, em 2015, e Budapeste em 2017 e 2022, e bronze em Gwangju, 2019. Em torneios de piscina curta, foi ouro em Istambul, 2012, Hangzhou, 2018, Abu Dhabi, 2021, e Melbourne, 2022.

O trabalho está sendo gerido por Alberto Pinto Silva, o Albertinho, que já treinou importantes nomes da natação brasileira, como Cesar Cielo, Thiago Pereira, e com Renato Balan acompanhando o dia a dia.

O estafe de Nicholas Santos faz monitoramentos e análises que vão desde de o uso de vídeos dele na água até dados sobre metabolismo.

“Tenho um estafe muito bom e dedicado para que a gente consiga ter esse projeto. E acho que é muito menos pressão [agora]. Eu sempre me cobrei demais. Tem que ter aquele frio na barriga na hora certa, mas, falando de maneira simplória, já fiz tudo o que eu queria na natação com relação a entregar resultado e esse é um desafio que eu me propus a fazer. Tenho saúde, posso fazer e estou muito feliz em aceitar tentar uma vaga olímpica”, explica.

O que ficou na minha cabeça foi que desde 2015 eu ganho medalha em Campeonato Mundial. Eu sei que agora, sendo uma prova olímpica, vai aumentar o nível, vai cada vez ficar mais difícil essa prova [50 m borboleta], mas eu pensei: ‘por que não tentar?’. Eu não queria estar com 60 anos de idade e falar: ‘putz será que se eu tivesse feito isso, teria dado certo?’. Poxa, eu só posso fazer isso agora.Nicholas Santos

No Maria Lenk, Nicholas ficou com a prata, tendo feito os 50 m borboleta em 23s19, atrás de Guilherme Caribé, que fez em 23s01. Dias depois, levou o bronze no Mare Nostrum em Barcelona, com 23s31 — Ilya Kharun, dos Estados Unidos, levou o ouro, com 22s99, e o russo Oleg Kiston, com 23s12, ficou com a prata. A melhor marca de Nicholas na prova é 22s61.