SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Deprimido há dois mil anos, Deus procura uma psicóloga e antes de se apresentar faz um apelo: “Eu só peço que me escute. Quero falar com alguém”.
A aflição do personagem interpretado por Sérgio Guizé, 46, na peça “Meu Deus!”, da dramaturga israelense Anat Gov, está relacionada a uma de suas criações: o ser humano e as guerras, devastações e injustiças que promove.
O homem foi planejado para ser um amigo de D., o apelido usado pelo paciente para marcar a consulta; no entanto, algo deu errado.
A psicóloga, papel de Bianca Bin, 35, também vive seus dramas e dilemas, o que transforma a terapia em uma sessão de mão dupla: os dois falam, um ouve o outro e ambos elaboram as emoções diante do público.
O espetáculo, a primeira experiência conjunta do casal de atores, estreia nesta sexta-feira (24) no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, em São Paulo, e fica em cartaz até novembro antes de percorrer o país.
Apesar do desânimo do todo-poderoso e das dificuldades terrenas da profissional, mãe solo de um filho autista, Paulo Enzo Morente, a peça não é dramática. Trata-se de uma comédia ácida, característica acentuada pelas expressões e improvisos de Guizé, capaz de arrancar gargalhadas da equipe técnica durante os ensaios.
Deus precisa lidar com a sua criação fora de controle, pensa em suicídio e na sessão de terapia, reflete sobre culpa, fé, solidão e esperança. Ana, a psicóloga cética, é lembrada pelo “cliente” sobre as ocasiões em que citou, em vão, o nome dele.
Em comum, os dois têm a rotina de ouvir os problemas dos outros ele em escala estratosférica e infinita. Mas há também as belezas da obra divina: os tons da Lua, as zebras, as girafas, o amor e o chocolate.
Os dois atores foram convidados por Elias Andreato, diretor da peça, para ler a dramaturgia, e o encanto foi imediato.
“É um texto atual, que faz rir, mas ao mesmo tempo provoca reflexões profundas, existenciais”, afirma Bin. A atriz enxerga a psicóloga que interpreta como um símbolo da atualidade: uma mulher exausta, que carrega o mundo nas costas, está ferida, mas não desiste da vida.
Apesar de ter mudado para São Paulo para estudar teatro aos 16 anos, Bin foi rapidamente capturada pela televisão e passou a atuar em uma novela atrás da outra, até chegar a um questionamento: “É isso que eu quero para a minha vida?”
Ela estreou a primeira peça, “O Homem que Matou Liberty Valence”, apenas em 2021, após quase duas décadas de carreira e da conquista da estabilidade financeira. Fez mais três espetáculos até chegar a “Meu Deus!”
“Está sendo muito especial, me devolveu o prazer de estar em cena, de interpretar. Estou me sentindo muito nutrida pelo teatro”, diz.
A atriz enfrentou uma crise de burnout após anos com apenas uma folga semanal, trabalhando 11 horas diariamente e com 50 páginas de texto para decorar nos domingos.
Reconheceu que o corpo não aguentava mais, falou abertamente sobre a situação e estabeleceu a escala 5×2 como condição para participar de novelas. Diz ver a questão como coletiva, com a necessidade de mobilização dos artistas.
“Ajudei a propagar essa conversa, mas ainda temos muito o que falar, temos que conquistar muitas coisas. É uma questão física, de saúde. Fiquei exaurida, não tinha mais o que dar, o que me fez até questionar o desejo de atuar.”
A possibilidade de a TV Globo substituir o regime de gravações de seis dias de trabalho e um de folga para a escala 5×2 é chamada informalmente de lei Bianca Bin.
Guizé também adotou a exigência e conquistou o direito a duas folgas semanais no último contrato com a Globo, assinado para protagonizar a novela “Êta Mundo Melhor”, em que interpretou Candinho.
A questão é abordada, com bom humor, em “Meu Deus!”, quando o personagem supremo faz uma autocrítica ao dizer que deveria ter parado no quinto dia de trabalho, pois no sexto criou o homem.
A mudança para o interior de São Paulo faz parte das transformações vividas pelo casal, junto desde 2017. Ele se recusou a morar na Barra da Tijuca, onde a mulher vivia. Ela, por sua vez, não queria a vida boêmia do marido no Bexiga, em São Paulo.
Os dois ouviram uma dica de Lima Duarte, 96, e escolheram uma chácara em Indaiatuba para o dia a dia conjugal, apesar da perplexidade dos amigos diante da opção pela vida no campo. Agora, são vizinhos do ator veterano.
O contato com a natureza, o ar menos poluído, o tempo para ler e as noites bem dormidas fazem a experiência valer a pena, apesar de Guizé sentir falta da rotina de frequentador de teatros na região central de São Paulo.
As viagens semanais de carro para ensaiar na capital paulista contribuem para a fluidez do texto da dramaturga isralense. No percurso de uma hora, eles decoram as falas e encontram o tom para a comédia reflexiva.
“Esse Deus é uma alegoria da fragilidade humana, cheio de nuances”, diz Guizé, que tinha o desejo de ser dirigido por Andreato. “Eu estava muito curioso, porque, afinal de contas, é praticamente uma universidade de teatro.”
O diretor afirma que o humor ácido do espetáculo exige dos atores um equilíbrio entre a comédia e a visão crítica da autora. Ele já havia dirigido a montagem da peça protagonizada por Dan Stulbach e Irene Ravache, em 2014.
Andreato enxerga em Guizé e Bianca uma afinidade artística, independentemente de eles serem um casal. E destaca a atualidade da dramaturgia.
As redes sociais e a proliferação de imagens levam para o cotidiano de todos as atrocidades do mundo, desde o despertar até a hora de dormir.
É um bombardeio de guerras, violência, ataques ao meio ambiente e crueldades humanas. Cenas que cansam até Deus, imagina então os simples mortais.
Meu Deus!
Quando Até 1º de novembro. Sexta e sábado, às 20h. Domingo, às 17h
Onde Teatro das Artes
Preço De R$ 25 a R$ 160
Classificação 12 anos
Autoria Anat Gov
Elenco Bianca Bin, Sérgio Guizé e Enzo Morente
Direção Elias Andreato



