SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O estudante Arthur Spuri, 16, ficou em primeiro lugar na IEO (Olimpíada Internacional de Economia) e se tornou o único sul-americano da história a liderar a classificação geral da competição. O resultado foi obtido no último fim de semana, durante a 9ª edição do evento, realizada em Shenzhen, na China, onde ele conquistou medalha de ouro.

Essa não foi a única marca inédita deixada pelo jovem brasileiro na história da olimpíada. Arthur foi o primeiro competidor a obter nota máxima nas duas provas individuais e ainda integrar a equipe que ficou em primeiro lugar no “business case”, a etapa coletiva da competição.

“Em nenhum dos meus maiores sonhos eu imaginei que estaria aqui e conseguiria algo assim”, afirmou o estudante. Ele diz encarar o momento da prova como o mais tranquilo, já que concentra o estresse na fase de preparação.

Voltada para estudantes do ensino médio do mundo inteiro, a IEO reúne equipes de até cinco alunos por país, selecionados por meio de competições nacionais. Além de Arthur, outros dois brasileiros conquistaram medalhas de ouro nas provas individuais ao ficarem entre os 20 melhores colocados.

A disputa é dividida em três etapas: duas provas teóricas individuais, de economia e finanças, e uma prova prática em grupo. Nessa fase, os participantes recebem uma situação-problema do mundo real e precisam propor uma solução e apresentá-la a uma banca avaliadora.

A equipe brasileira escolheu trabalhar com o mercado de terras raras, tema já estudado na seletiva nacional, e propôs a criação de um hub de incentivo à exploração do setor na Bahia.

Poucos dias antes de embarcar para a Ásia, Arthur estava em Bucaramanga, na Colômbia, competindo na Olimpíada Internacional de Física, na qual conquistou medalha de prata. “Saí da prova e descobri o resultado no táxi, porque já precisava ir para a próxima competição”, contou. Em setembro, ele ainda disputará a Olimpíada Internacional de Astronomia e Astrofísica, no Vietnã.

Na China, Arthur não soube imediatamente do resultado final no palco. Seus mentores o chamaram para uma sala reservada e anunciaram que ele havia ficado em primeiro lugar geral, com a maior pontuação da história da competição, 199.469 pontos.

Na hora de anunciar o resultado para a família, o jovem decidiu fazer uma brincadeira e deixou o pai, Osvaldo Spuri, no “suspense”. Desligou o celular e esperou que os pais acompanhassem tudo pela transmissão ao vivo.

Enquanto ele subia ao palco repetidas vezes para receber prêmios, o pai enviava mensagens surpreso. “Como assim? Tá monstruoso. O que você fez nessa prova, filho?”

Esse apoio familiar foi o que levou o aluno até as competições de conhecimento. Na infância, ele preferia brincar a estudar, até que o pai o incentivou a participar da Olimpíada Canguru de Matemática, oferecendo um prêmio caso conquistasse alguma medalha.

Segundo Arthur, o diferencial foi a forma como Osvaldo transformou o estudo em algo prazeroso. Os dois resolviam problemas juntos e tratavam as competições como um hobby, e não como obrigação.

Para o pai, essa parceria rendeu episódios marcantes. Ele relembra uma questão sobre torneios de tênis com 128 jogadores. Enquanto começava a calcular rodada por rodada, Arthur chegou direto à resposta. Disse que cada jogo elimina um jogador e, como apenas um termina campeão, seriam 127 partidas. “Naquele momento, eu me senti o aluno”, conta.

Em 2017, ainda no ensino fundamental, Arthur se mudou de São Paulo para Fortaleza, onde passou a estudar no Colégio Farias Brito. O desempenho nas competições chamou a atenção da escola, que o convidou para integrar a sede central.

Hoje, ele cursa o 2º ano do ensino médio e integra a Turma Aplicação, voltada para vestibulares de alta exigência. “Eu já não consigo ajudá-lo nas questões técnicas, faz muito tempo que ele me ultrapassou em praticamente todas essas áreas. Mas continuo procurando estar presente”, diz Osvaldo.

Ele também cita o esforço da mãe, que acordava às 4h30 para levá-lo a aulas antecipadas. “Se fosse só eu comemorando sozinho, ou com eles [pais] sem saber o tamanho dessas coisas, eu não teria tanto incentivo para continuar”, diz

O pai, engenheiro que trabalha com a Bolsa de Valores e o mercado de ações —o que aproximou o filho da economia—, também é espelho para o futuro de Arthur. Atualmente, o estudante pretende cursar engenharia civil, mecânica ou elétrica, na USP ou no exterior. Seu maior sonho é estudar no MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos.

Além disso, o jovem deseja seguir um caminho profissional semelhante ao do pai, atuando no mercado financeiro, com interesse voltado especificamente para a área de “quant trading” (negociação quantitativa).

Antes da conquista de Arthur, a maior posição de um brasileiro na competição tinha sido a segunda colocação, alcançada em 2019. Atualmente, o Brasil tem 22 medalhas de ouro na competição.