FOLHAPRESS – O título original de “Extinção”, romance de estreia da ucraniana-canadense Maria Reva lançado pela DBA, é um neologismo da língua inglesa elaborado pela prestigiosa revista científica americana Nature: “Endling”.

De difícil tradução condensada, o termo designa o último indivíduo de uma espécie —”end” significa fim, “ling” é o sufixo para o diminutivo associado a seres menores e desprotegidos. Dessa forma, “Extinção” é um substituto aceitável, ainda que não capte todo o foco de Reva.

O título parece se referir a um “endling”, Canhotinho, presumivelmente o derradeiro exemplar de sua espécie de caracóis. Mas, à medida que a trama ganha ares de delírio a ser filmado por alguém com a verve do falecido David Lynch ou de Emir Kusturica, fica claro quem são os nanicos à deriva esperando o fim: todos os personagens e nós.

Reva conta uma história centrada em Ieva (Eva, em ucraniano), especialista nos gastrópodes em questão. Ela percorre a Ucrânia em uma van tentando catalogar e salvar espécimes ameaçados como Canhotinho, assim apelidado pela curvatura única de sua concha.

Dona de uma vida deprimente, Ieva pretende se matar. Até lá, banca sua pesquisa se fingindo de candidata a noiva na prolífica indústria de atração de solteirões ocidentais que grassava na Ucrânia até a invasão russa de 2022.

A cientista acaba esbarrando, em uma reunião de incautos, em duas irmãs, a irritante Nastia e a cerebral Sol. Elas são filhas da líder de um grupo feminista à imagem do Femen, movimento radical nascido na Ucrânia famoso pelos protestos com mulheres nuas.

A dupla pede ajuda para um golpe, o sequestro de um grupo de pretendentes, para denunciar os abusos daquela indústria e tentar chamar a atenção da mãe desaparecida. Uma comédia de erros se sucede.

Só que Vladimir Putin, espezinhado como seria previsível ao longo do texto, resolve lançar seus mísseis e atravessar a fronteira na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, justamente quando o sequestro dos 13 homens está em curso.

O livro acaba com uma narrativa algo convencional, bem escrita e traduzida, com direito a nota sobre a tipologia empregada na edição brasileira, na página 189. Só que não. E uma viagem delirante começa então até o epílogo de fato, 260 páginas à frente.

Convidada de destaque da Flip, Reva introduz uma estrutura metalinguística na qual intervém na história, seja reescrevendo capítulos, seja pela ação de seu alter ego, Macha, a chefe da agência casamenteira que sempre parece saber mais do que os outros.

De Cervantes a Machado de Assis, autores sempre debateram meandros de seu processo criativo. Ou, no caso de Reva, a dificuldade de encontrar alguém interessado em seu humor cáustico quando todos no Canadá só queriam ouvir impressões lacrimosas de uma ucraniana no exílio durante a guerra.

Fora das páginas, foi o contrário: publicado em 2025 no exterior, “Extinção” foi semifinalista do importante prêmio Booker e rendeu o convite à Festa Literária Internacional de Paraty.

Nos seus melhores momentos, a metalinguagem da obra debate a função da arte ante o horror do mundo; nos piores, flerta com o vitimismo ou soa maneirista. Algumas das digressões também atrapalham a fluidez narrativa.

Problema mais notável é o desnível no desenvolvimento dos personagens. O trio central, acrescido do perdido pretendente Pacha, tem nuances suficientes, e um importante idoso a ser resgatado na sitiada Kherson entra na trama como símbolo.

O restante, a começar pelos sequestrados, bovinos em suas reações, parece cumprir tabela decorativa.

São falhas menores, contudo, diante da vertigem temática e do absurdo do real. A guerra, primeiro como nuvem no horizonte e depois como tempestade, tem seus desígnios ridicularizados numa passagem espetacular em que é encenada uma recepção festiva de moradores aos invasores.

Mas o conflito serve também de cenário, mais do que objeto de escrutínio vertical. Debates sobre a morte, o existencialismo, o radicalismo feminista e até cenas quentes de sexo entre caracóis se misturam na cornucópia de Reva. No meio de tudo isso, o leitor, esse “endling”.

EXTINÇÃO

– Avaliação Muito Bom

– Preço R$ 104,90 (456 págs.)

– Autoria Maria Reva

– Editora DBA

– Tradução Gisele Eberspächer