SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Está bem em alta andar por aí com sua ecobag, livro, matchá, um olhar misterioso e, por isso, ser chamado de “performático”: um adjetivo que não é considerado positivo na linguagem das redes sociais. Mas o que ele significa?
A palavra que o origina, performance, não nasce com um teor pejorativo. Ela se refere ao ato de executar ou representar uma ação diante de um público. Nas artes, descreve uma apresentação ou manifestação expressiva. Já nas ciências sociais, autores como Erving Goffman utilizaram a ideia de performance para explicar como as pessoas constroem diferentes versões de si mesmas conforme o contexto social. Nesse sentido, todos nós estaríamos performando papéis no cotidiano.
Nas redes sociais, porém, o termo ganhou outro significado: passou a ser usado para descrever comportamentos percebidos como encenados, feitos mais para transmitir uma determinada imagem do que por interesse ou convicção genuínos.
O curioso é que o rótulo de “performático” costuma recair justamente sobre práticas ligadas ao universo analógico. Ler um livro no parque ou ouvir um vinil deixaram de ser apenas hábitos e passaram a comunicar um determinado estilo de vida quando compartilhados nas redes. A valorização desses objetos reflete uma busca por experiências mais tangíveis e desaceleradas, mas também revela como até o desejo de parecer autêntico pode se transformar em uma estética compartilhável.
Nos últimos meses, o conceito de “capital cultural”, criado por Pierre Bourdieu, também voltou a ganhar força nas redes. Ele descreve como conhecimentos, repertórios e gostos podem funcionar como formas de prestígio e distinção social. Na era digital, esse capital torna-se ainda mais visível no feed, onde consumir e performar cultura muitas vezes se confundem.
No entanto, essa leitura acabou se ampliando, e todo consumo passou a ser considerado performático, como se interesses genuínos não tivessem mais vez na internet. A lógica da exposição acaba colocando qualquer tipo de autenticidade em dúvida. Quanto mais uma experiência é compartilhada, mais ela pode ser interpretada apenas como encenação.
Muitos jovens estão, de fato, ampliando seus repertórios culturais por meio das trends no TikTok. O problema não está em ler Dostoiévski ou frequentar museus todo fim de semana, mas na ideia de que apenas esse tipo de consumo seria legítimo e as pessoas passam a medir o valor da experiência pela sua capacidade de ser exibida.




