SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Esta será a maior Flip de todas, mas não necessariamente pelo que se verá no palco principal do centro histórico de Paraty.
A edição da festa literária que começa nesta quarta-feira (22) bateu um recorde de 46 casas parceiras com programações paralelas. Para comparação, foram 35 casas afiliadas no ano passado e 29 no anterior.
Todo mundo que já flanou por Paraty durante a Flip -evento cultural que abarrota a cidade fluminense de menos de 50 mil habitantes com dezenas de milhares de visitantes- certamente experimentou a sensação de desnorteio pelo excesso de eventos acontecendo ao mesmo tempo.
Dessa vez, o sentimento deve ser ainda mais agudo, porque as mesas contabilizadas durante os cinco dias de festival se aproximam de mil. Quem estima é o criador e diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz, que enxerga um crescimento orgânico dos parceiros ao longo dos anos.
“A gente está muito feliz com essa procura, porque é um sinal de sucesso da Flip”, afirma o arquiteto que dirige a Associação Casa Azul, responsável pela festa. “É uma complementaridade muito saudável. O interesse de montagem das programações é muito diferente. Por isso se chama casa parceira: é uma colaboração, não uma concorrência.”
O assunto ganhou fôlego quando a casa organizada pelo Sesc Rio anunciou a primeira ida a Paraty da ativista Angela Davis, uma das maiores referências do feminismo negro -ela dividiria mesa com o Nobel de Literatura nigeriano Wole Soyinka, mas o Sesc divulgou, nesta segunda-feira, que a vinda dele está cancelada.
Enquanto isso, a curadoria do programa principal, capitaneada pela primeira vez pela crítica literária Rita Palmeira, aposta em autores premiados que ainda não têm lá um leitorado muito vasto, mesmo que reúnam potencial e qualidade literária para isso –caso, aliás, da homenageada do ano, a poeta paulista Orides Fontela.
São exemplos o escritor argelino Kamel Daoud, vencedor do Goncourt por “Língua Interior”, da editora DBA; o italiano Andrea Bajani, que ganhou o Strega por “O Aniversário”, da Companhia das Letras; e Nathacha Appanah, reconhecida com o prêmio Femina por “Noite no Coração”, que sai pela Bazar do Tempo.
Appanah nasceu nas Ilhas Maurício e, assim, atende a um desejo de Palmeira de “trazer gente de lugares distantes”, à medida que o orçamento permitiu. “Às vezes o debate literário se refere sempre aos mesmos países. Pensei que seria legal ter autores de países que ainda não estiveram na Flip ou que são menos conhecidos até da própria história.”
Então foi possível convidar Eduardo Halfon, que escreve sobre a Guatemala em “Tarântula”, a congolesa Ève Guerra e os ucranianos Maria Reva e Andrei Kurkov. Todos têm chance de furar a bolha de seu público com a projeção da Flip –uma bolha já estraçalhada pela britânica Zadie Smith, a mais famosa do elenco.
Editada no Brasil pela Companhia das Letras, Zadie é um fenômeno literário, mas o nome mais conhecido de Paraty ainda será o de Angela Davis, ícone da militância de esquerda a ponto de estampar bottoms e camisetas.
O burburinho em torno dela foi tamanho que a organização do Sesc decidiu transferir sua palestra para uma tenda especialmente montada no Sesc Caborê, com capacidade para 700 pessoas. Para efeito de comparação, o Auditório da Matriz, onde acontece o programa principal da Flip, tem 499 lugares.
Christine Braga, gerente de cultura do Sesc Rio, diz que o incremento na programação foi para dar mais visibilidade ao trabalho da instituição como um todo. A Flip é o espaço ideal, segundo ela, porque há “alta procura por eventos paralelos e alternativos para acolher plateias menores”, com um público “interessado em conhecer novas ideias e autores”.
A presença de Davis veio como consequência, e não causa, de uma curadoria voltada à relação entre as Américas e a África, diz a gerente do Sesc, reforçando a presença de nomes brasileiros importantes como Ana Maria Gonçalves e Muniz Sodré. Com orçamento 20% maior, a entidade pôde realizar a vontade de convidar uma referência internacional.
O Sesc já é presença cativa na Flip há anos, caso de outras casas tradicionais como a organizada pela Folha, por grandes editoras e por congregações independentes como a Casa Paratodos e a Sete Selos.
Entre as muitas estreantes de 2026, estão uma parceria entre a Fundação Itaú e a TV Cultura, a Casa Oásis, tocada pela produtora Cássia Carrenho, e a Casadelas, idealizada pela jornalista Carol Pires e a psicanalista Vera Iaconelli. A própria Casa Azul abriu duas novas frentes paralelas de curadoria, a Casa Flip+ Arquitetura e a Casa Paraty.
Munhoz diz que a concorrência com outras casas “não é uma preocupação”, rechaçando notas veiculadas na imprensa que apontaram que Davis teria gerado “ciumeira” na organização da Flip. “Não tem nenhuma competição, nenhum sentido de risco, de forma nenhuma. A curadoria da Flip tem uma coerência de linguagem que é o que a sustenta.”
Para reforçar que não há problemas de procura do público, a Flip informa que houve 17 mesas com ingressos esgotados no primeiro dia de vendas nesta edição, ante 11 no ano passado e 3 no anterior.
O diretor diz que o evento soube preservar sua independência e urbanidade ao longo do tempo, com “cuidado com o patrimônio material, imaterial e natural de Paraty”. Há alguns anos, a Casa Azul exige de seus parceiros, em contrato, cuidados com sustentabilidade e preservação ambiental para operar em Paraty.
Mesmo com um orçamento menor –o que o diretor atribui às incertezas de um ano de eleição e um “contexto internacional absolutamente maluco”–, Munhoz diz que o visitante não perceberá cortes, porque o enxugamento foi feito com maior vigor no trabalho que a Flip, reconhecida como patrimônio cultural e imaterial da cidade, faz “nos outros 360 dias do ano”.
Mas é nestes cinco que a pacata cidade praiana, para citar o livro de Zadie Smith, se move em ritmo louco.




