SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Após seis dias de protestos, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, foi obrigado a demitir o impopular chefe das Forças Armadas do país nesta terça-feira (21).

No cargo desde o começo de 2024, Oleksandr Sirskii, 60, dará lugar ao também general Mikhailo Drapatii, 44, chefe das Forças Conjuntas do país.

A crise começou na quinta passada (16), quando os raros protestos em um país em guerra desde a invasão russa de 2022 irromperam em grandes cidades, Kiev à frente.

Eles pediam também a volta ao cargo de Mikhailo Fedorov, o popular ministro da Defesa a quem se atribui crédito pela campanha de ataques com drones e mísseis que gerou uma crise no abastecimento de combustível na Rússia, pressionando Vladimir Putin.

Zelenski havia demitido Fedorov por dois motivos aparentes: a ascensão política do jovem de 35 anos, algo que poderia lhe fazer sombra, e principalmente a rixa entre Fedorov e Sirskii.

O comandante é visto como um representante da mentalidade militar da Ucrânia soviética, favorecendo táticas com alto custo de pessoal e uma meritocracia baseada em lealdade. Cartazes nas ruas o associavam a mais mortes de soldados ucranianos do que russos.

Na noite de segunda (20), o presidente disse em seu usual pronunciamento noturno que havia conversado sobre a situação com outros chefes militares, e citou especificamente Drapatii, o líder das Forças Aerotransportadas, Oleh Apostol, e o número 2 do Estado-Maior, Volodimir Horbatiuk. Decidiu pelo primeiro.

Em pronunciamento, Zelenski também disse que ofereceu a Fedorov um cargo ligado ao desenvolvimento tecnológico no governo, posto que é incerto se aceitará após as duras críticas a Sirskii quando foi demitido. Analistas o veem com pretensões políticas claras no episódio.

Na Defesa, o presidente havia nomeado de forma provisória Ievhenii Khmara, que era chefe também interino do SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia, na sigla local) desde o começo do ano e ganhou reputação justamente com as ações de sua unidade em solo russo.

A crise é mais um capítulo das lutas internas de poder na Ucrânia. O próprio Sirskii havia sido nomeado para substituir Valeri Zalujni, visto amplamente como o homem mais popular da Ucrânia e provável candidato a presidente quando o país tiver eleições novamente —o mandato de Zelenski acabou em 2024, mas a lei não permite pleitos durante a vigência da lei marcial.

Sirskii ainda tentou conter danos nesta terça, afirmando que “não havia notado” as desavenças sobre a condução do conflito que Fedorov tornou públicas após ser demitido, e pediu desculpas. Foi tarde.

Zelenski, a exemplo de Putin, estimula rivalidades entre seus subordinados e busca legitimar sua posição a partir de apoio popular, o que o faz sensível a pressões da rua. No ano passado, quando emergiram os maiores protestos até então, ele desistiu de uma lei que tirava poderes de órgãos investigativos, por exemplo.

Dezesseis anos mais novo do que o antecessor, Drapatii construiu reputação de eficácia ao ajudar a conter uma ofensiva russa na região de Kharkiv (norte) quando era o chefe das Forças Terrestres de seu país, em 2024. No ano seguinte, renunciou ao assumir a responsabilidade por não evitar um ataque que matou 12 soldados num campo de treinamento, o que foi visto como sinal de honradez.

Enquanto o drama político se desenrola, o militar segue o curso de escalada das últimas semanas, com o mar Negro voltando a se destacar como campo de batalha.

Nesta terça, a Rússia promoveu novos ataques contra instalações portuárias na região de Odessa, principal terminal exportador de grãos da Ucrânia. Segundo o Kremlin, os bombardeios continuarão contra navios que abastecem as forças de Zelenski, mas infraestrutura civil está sendo destruída no processo.

Perto da costa da Romênia, Um drone atingiu um navio com gás que rumava a Odessa. A Defesa russa afirmou ter alvejado ao todo quatro embarcações na região, uma no porto de Mikolaiv e outras três em travessia marítima.

Já o governo Putin restringiu as áreas de ancoragem de navios no mar de Azov, um trecho ao norte do mar Negro ligado a ele pelo estreito de Kertch, junto à Crimeia ocupada. Kiev alvejou mais de cem embarcações nesta região nas últimas semanas, adicionando alvos à sua campanha contra o sistema energético russo.

Agora, os navios só poderão ficar em áreas designadas como protegidas, uma admissão de que a Rússia não tem controle sobre o espaço aéreo que tomou para si no sul da Ucrânia.

A violência da campanha de lado a lado segue em alta, e segundo a ONU o primeiro semestre foi o mais mortífero para civis ucranianos desde março de 2022, o segundo mês da guerra.