SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em seu primeiro dia de vigência, o bloqueio aos portos sauditas no mar Vermelho pelos houthis do Iêmen foi eficaz em assustar empresas de transporte que operam na região. Ao menos sete petroleiros deram meia-volta, evitando o estreito de Bab el-Mandeb nesta terça-feira (21).
A via, por onde normalmente são escoados de 9% a 12% do óleo do mundo, foi declarada fechada pelos rebeldes apoiados pelo Irã para navios indo ou vindo com o produto saudita na segunda (20).
Os dados são de monitores de tráfego marítimo, mas ainda não há um cenário fechado porque os relatórios dependem de os navios estarem com seus sistemas de posicionamento por satélite operando. O impacto nos contratos futuros foi imediato: o barril do tipo Brent subiu 2%, batendo US$ 91.
Nesta terça, segundo agências de notícias, os houthis enviaram e-mails para empresas que operam na região alertando contra o trânsito pelo estreito, abrindo efetivamente uma nova frente na guerra iniciada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra seus patronos em Teerã.
Nesta terça, Trump afirmou que os EUA irão responder caso haja necessidade. Se houver algum ataque a navios mercantes, disse, “nós teremos que cuidar do assunto”.
Os rebeldes dominam a região oeste do país com apoio do Irã desde 2014, enquanto o governo destituído da capital Sanaa tem suporte de Riad.
Os houthis têm um vasto arsenal de drones e mísseis que podem causar um estrago considerável ao comércio mundial, como ficou evidente ao apoiar os terroristas do Hamas contra Israel no conflito de 2023 a 2025 e, com isso, quintuplicar os fretes devido aos desvios para evitar o mar Vermelho.
O nó é outro estreito, Bab el-Mandeb (ou Bab al-Mandab, que significa Portão das Lágrimas em árabe), que divide a costa iemenita e do Djibuti e liga o mar ao oceano Índico.
Ele é a rota alternativa usada pelos sauditas para enviar o grosso de seu petróleo para China, Índia e outros destinos asiáticos, devido ao fechamento na prática de Hormuz desde o começo da guerra.
Pelo canal de Suez, no norte do mar Vermelho, passam petroleiros rumo à Europa. Teoricamente eles estão menos expostos do que aqueles que navegam pelo estreito, que tira seu nome dos inúmeros naufrágios ao longo dos anos. Mas ainda assim os houthis podem buscar alvejá-los, pois têm mísseis e drones de longa distância.
Desde o começo da guerra, com Hormuz travado, Riad quadruplicou para quase 4 milhões de barris/dia a quantidade de óleo pelo Bab el-Mandeb.
Na semana passada, o governo derrubado do Iêmen iniciou um bloqueio aéreo ao aeroporto de Sanaa com apoio de aviões de combate sauditas, o que levou os houthis a radicalizar sua posição. Riad queixou-se das ameaças marítimas, mas não explicou por que retomou as hostilidades que vinham congeladas desde 2022.
O impacto potencial do fechamento do estreito é grande. Dos 7 navios monitorados, 4 já estavam no mar Vermelho carregados e outros 3 se encontravam perto da costa do Iêmen, no golfo de Áden, antes de entrar na região.
Os dois primeiros a dar meia-volta, um rumo à China e outro, à Índia, seguiram para Suez. A meia-volta sugere que os navios tomarão a rota mais longa para seus destinos, saindo pelo mar Mediterrâneo rumo ao Atlântico e contornando a África rumo ao Índico.
No caso do caminho entre o porto de Yanbu, o principal dos sauditas no mar Vermelho, e a costa leste chinesa, é um acréscimo de 10 a 15 dias numa viagem que normalmente dura de 20 a 25 dias, a depender de condições climáticas e da velocidade da embarcação.
O custo total sobe: combustível, diárias da tripulação, frete da carga e seguro.
Ainda há empecilhos adicionais, já que o canal de Suez, administrado pelo Egito, não tem capacidade de dar passagem a superpetroleiros do tipo VLCC que costumam abastecer a China. Eles têm de operar com a carga reduzida, sem bater no fundo do canal.




