SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Numa sala cheia de espectadores, Regina José Galindo é despida aos poucos. Pessoas fazem fila para tirar as roupas da artista, e uma pilha de peças cresce ao lado dela. Em exibição no Masp, em São Paulo, “Deportada” faz do desaparecimento humano uma performance.
Célebre por tratar de crises como a guerra civil da Guatemala, país da artista, ela se inspira agora em Cristina Cazales Pacheco, forçada a deixar Nova York para voltar ao México. Daí o figurino de Galindo, que, no vídeo, veste roupas da deportada para ilustrar a permanência de causas sociais.
E não é por acaso que as vestimentas são arrancadas por terceiros. A presença desses agentes externos remete à normalização de ataques aos direitos humanos e traça um paralelo com o próprio público do museu.
“O corpo é uma arma de expressão, de luta, resistência e resiliência”, afirma a artista. “Toda manifestação expressa por meio dele adquire uma dimensão mais horizontal.”
“Muitas vezes, as narrativas tornam as vítimas desses processos em números”, diz a curadora Bruna Fernanda. Ela explica que José Galindo expõe seus próprios recortes raciais, de gênero e de classe para estreitar a relação com o público.
Talvez por isso, ao final, o amontoado de peças apareça numa sala vazia, que representa todos os que tiveram a existência negada em certos países e sistemas.
A performance em vídeo é complementada por uma segunda tela, que exibe uma entrevista dolorosa com Cristina, a mulher deportada.
Enquanto o visitante vê a guatemalteca, de costas para os depoimentos, os lamentos da mexicana ecoam pela sala de projeção como uma voz profunda, detalhando os traumas do deslocamento compulsório e a dura realidade longe dos entes queridos.
“Não trabalho com pessoas sem voz. São vozes potentes, de gente lutadora”, afirma Galindo. “Cristina é incansável. Ela falou e se fez ouvir durante anos. Ela me emprestou sua voz, e eu a amplifiquei com meu corpo.”
Entre outros feitos, “Deportada” lembra “La Sangre del Cerdo”, que Galindo apresentou na Califórnia há quase uma década. A performance chamou a atenção por denunciar políticas de anti-imigração e por flertar, outra vez, com o livre-arbítrio alheio.
Na ocasião, a artista posou nua sob um balde cheio de sangue, que aqueles ao redor deviam escolher se derrubariam ou não. A primeira apresentação exigiu quase duas horas e terminou quando um dos presentes decidiu puxar a corda.
Agora, ela se prepara para apresentar, em frente à multidão da avenida Paulista, uma performance que encerrará a atual exibição no Masp.
Prevista para 22 de agosto, no vão livre do museu, a ação inédita parte de estudos sobre a violência policial no Brasil no ano passado, ocorreu aquela que é considerada a operação policial mais agressiva da história do Rio de Janeiro.
A partir de histórias de representantes do Movimento Mães de Maio, criado em 2006, a artista vestirá roupas de Débora Maria da Silva, que perdeu o filho há duas décadas, e levará ao público um depoimento gravado da enlutada.
“Uso meu corpo como catalisador de histórias reais, de tragédias sociais e acontecimentos dramáticos. Eu o empresto, como um corpo médium”, diz a artista. “Ele se empresta, se entrega. Não representa ou atua. Deixo-me possuir pela energia de quem incorporo e deixo que essa energia flua até o público.”
Sala de Vídeo: Regina José Galindo
Quando Ter., das 10h às 20h; Qua. e quin., das 10h às 18h; Sex., das 10h às 21h; Sáb. e dom., das 10h às 18h. Até 23 de agosto; Performance no vão livre em 22 de agosto
Onde Masp – Av. Paulista, 1578, São Paulo
Preço R$ 85. Gratuito às terças



