SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – A ressaca da inédita Copa do Mundo de 48 seleções mal começou e o futebol brasileiro já se vê obrigado a lidar com um calendário completamente estrangulado. Com 39 dias de disputa no Mundial, a falta crônica de datas no país forçou o reinício das atividades domésticas antes mesmo do apito final da competição da Fifa.
A urgência foi ditada principalmente pelos compromissos internacionais imediatos. Em função dos playoffs da Copa Sul-Americana, agendados para a próxima semana, quatro clubes brasileiros precisaram adiantar seus jogos pelo Campeonato Brasileiro e entraram em campo com o Mundial ainda em andamento. Santos, Vasco, Red Bull Bragantino e Grêmio iniciam os playoffs do torneio continental nesta semana.
Em 2026, o aperto nas datas começou cedo no futebol brasileiro. A Copa do Mundo obrigou a antecipação dos Estaduais para 11 de janeiro, espremendo ainda mais o início da temporada. Com o aumento da duração do Brasileirão e a reformulação da Copa do Brasil, o calendário de 2026 precisou absorver um impacto estimado de 55 dias provocado pelos torneios da Fifa.
E, após duas temporadas com o Super Mundial no ano passado e a Copa neste ano, o cenário promete se repetir em 2027, quando o Brasil será o país-sede da Copa do Mundo feminina. Depois, no ano seguinte, ainda haverá a disputa da Copa América.
Para Paulo Vinícius Coelho, colunista do UOL, é dever da CBF tornar o calendário menos apertado, independentemente da existência de competições no meio da temporada, como tem sido padrão recentemente.
“Não importa se tem data a mais, a CBF tem que resolver de um jeito que as Datas Fifa sejam respeitadas, que os clubes tenham jogadores liberados para as seleções, das seleções de sub-20 e sub-17. O papel da CBF é fazer isso caber”, afirma PVC, que cita exemplos dos últimos anos.
“Não pode mais acontecer o que aconteceu nos últimos anos de jogar o Mundial Sub-20 sem ter o Ryan liberado pelo Vasco, como no ano passado. Ou 2019, que o Carlos Amadeu, técnico da seleção Sub-20, foi para o Sul-Americano sem nove jogadores que convocou”, completa.
O PREÇO DO SUCESSO
A retomada do Brasileirão expõe outra ferida: os desfalques. A maioria dos atletas que esteve envolvida na Copa do Mundo ganhou descanso após sua participação no torneio. É o caso de Neymar, que desfalcou o Santos diante do Botafogo para relaxar nos Estados Unidos após a eliminação do Brasil para a Noruega.
Para outros times, o prejuízo é médico. O Flamengo não poderá contar com Lucas Paquetá na volta dos compromissos oficiais, após o meia se lesionar a serviço da seleção brasileira.
No Palmeiras, atual líder do Brasileirão, a dor de cabeça é no setor ofensivo. Além de não contar com Vitor Roque, também machucado, a comissão técnica comandada por Abel Ferreira não terá Flaco López, que esteve envolvido na grande final da Copa do Mundo, que ganhou férias e voltará só no fim do mês.
A CONTA DO MUNDIAL DE CLUBES E O DESGASTE EXTREMO
O cenário é ainda mais dramático para equipes como Palmeiras e Flamengo. Além de cederem mais atletas para as seleções nacionais na Copa do Mundo, ambos disputaram o Mundial de Clubes da Fifa no ano passado ao lado de Botafogo e Fluminense período em que os demais concorrentes do país desfrutavam de descanso.
O reflexo desse acúmulo de jogos foi comprovado em um levantamento divulgado pela BBC. O palmeirense Flaco López foi destacado como o atleta presente na Copa do Mundo com mais partidas disputadas entre junho de 2025 e junho de 2026, atingindo a marca de 77 jogos.
O zagueiro Léo Pereira, do Flamengo, também figura no topo do ranking com 65 exibições, sendo o segundo jogador em todo o mundo com mais minutos em campo no período, atrás apenas do holandês Virgil van Dijk.
Se o cenário atual já beira o limite, a tendência é de agravamento, pois os clubes brasileiros terão que se desdobrar em breve: a Copa do Brasil retoma suas atividades já no dia 1º de agosto, enquanto as oitavas de final da Copa Libertadores estão programadas para começar em 11 de agosto.
“Tem que resolver. Encontrar uma organização suficiente, diminuindo onde tiver que diminuir, mas tem que caber. Esse é o ponto, para isso que a CBF funciona, é para dar a organização disso”, afirma PVC.



