SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Que o futebol move multidões e somas incalculáveis de dinheiro, fica evidente durante a Copa do Mundo. Diante da magnitude do campeonato, é fácil esquecer da força deste esporte como um motor de conexão entre os jovens brasileiros em quadras de areia, gramados, campos à beira do rio ou dentro da floresta, eles fazem do jogar bola um momento de socialização e lazer.
Em busca desse antiespetáculo, disputado não para as câmeras de televisão, mas pelo prazer em si, o fotógrafo Hick Duarte viajou durante cinco meses pelo Brasil para retratar o futebol informal, o esporte pelo esporte. O resultado são as 63 imagens da exposição “Em Campo”, em cartaz até 22 de agosto na nova galeria Capela, em São Paulo, um espaço dedicado à fotografia.
“O futebol é um componente essencial na vida dessa juventude”, afirma Duarte. “A exposição é uma espécie de manifesto sobre esse futebol jogado com garra, com paixão, sem dinheiro, sem estrutura. Eu fui vendo isso ao longo das viagens, entendendo como as pessoas resistem jogando e mantendo esse esporte apesar da escassez.”
Na série logo à entrada da mostra, vemos uma partida entre quilombolas de Goiás, disputada sob forte chuva. As imagens em um preto e branco fortíssimo praticamente ocultam os rostos dos jogadores, enquanto ressaltam os movimentos do esporte, como o drible, o carrinho e a marcação, a água saltando das poças com a força das chuteiras pisando no gramado.
Duarte, de 35 anos, fez carreira fotografando a noite e, depois, moda. Clicou, por exemplo, as imagens de celebridades para a campanha publicitária da chegada da varejista H&M no Brasil, no ano passado. Seu olhar, que leva em conta o estilo e a subjetividade do sujeito atrelado a ele, aparece na mostra num conjunto de retratos tirados após as partidas de futebol.
Odilene, uma jogadora indígena de Alter do Chão, no Pará, olha para a câmera com um traje que deixa à mostra suas pinturas corporais; Lucas, de Taboão da Serra, em São Paulo, aparece com um par de chuteiras penduradas no pescoço.
Isolados, os retratos poderiam ser propagandas de tênis esportivos ou camisetas de times de futebol; no conjunto, formam um panorama da diversidade da juventude brasileira nos estados de São Paulo, Goiás, Pará, Acre e Bahia.
Para esta série, Duarte fotografou os sujeitos em fundo branco, de frente para a câmera, inspirado pelo ensaio “In the American West”, do americano Richard Avedon. Um dos trabalhos mais célebres da fotografia do século 20, o ensaio mostrou a cara do interior dos Estados Unidos entre o final da década de 1970 e meados da seguinte, representado por trabalhadores de minas, garçons, prisioneiros, adolescentes e operários de fábricas.
Duarte chama a atenção para o caráter ritualístico do futebol. Nas partidas que acompanhou, ele conta ter visto um roteiro semelhante. As pessoas chegam, se cumprimentam e falam amenidades das próprias vidas para quebrar o gelo.
Em seguida, vestem o uniforme, se alongam e rezam antes de começar o jogo. O momento religioso pode ser um sinal da cruz individual ou uma oração coletiva, esta captada por ele numa sequência de imagens em tamanho de pôster em que jovens de Salvador se abraçam em comunhão.
Futebol e moda podem parecer campos distintos, mas para o fotógrafo talvez estejam próximos. Com as suas imagens de um e de outro, ele diz se interessar pelo lugar onde a realidade e a poesia se cruzam.
“Eu me interesso por essa linha borrada. Gosto muito de encontrar essa tensão entre o que poderia ser uma imagem de moda, mais sofisticada, mas que brota da realidade. Os próprios retratos têm coisas que a gente poderia ver numa revista [de moda] i-D, mas é basicamente um retrato de um jogador em Goiás.”
HICK DUARTE: EM CAMPO
– Quando Até 22 de agosto; segunda a sábado, das 12h às 20h
– Onde Capela Galeria: Galeria Metrópole Avenida São Luís, 187, Terraço, Sala 5, São Paulo
– Preço Grátis



