RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A TierMaker, plataforma usada por alunos do Colégio Cruzeiro do Rio de Janeiro para criar uma lista que classificava 65 colegas adolescentes em categorias de conotação sexual, hospeda publicamente listas de usuários que sexualizam personagens infantis de desenhos e animes, robôs e adolescentes, constatou a reportagem.

O conteúdo não está escondido: a própria página inicial destaca a categoria “Waifus” —gíria da cultura de animes para personagens femininas tratadas como objeto de desejo— e modelos de ranking como Female Cartoon Hotties (gostosas de desenho animado, em tradução livre), com mais de 200 personagens.

Em outro ranking público, robôs de desenhos e filmes são listados com conotação sexual. A lista, intitulada Robôs gostosas, tem cerca de 40 imagens de robôs de desenhos e filmes. A reportagem também encontrou listas de classificação do que pareciam ser nudes enviadas por mulheres que aparentam ser adolescentes.

Procurada por e-mail em 10 e 17 de julho, a TierMaker não respondeu até a publicação da reportagem.

A TierMaker não informa em seu site quem são seus donos. O único endereço divulgado, nos termos de uso, é uma caixa postal em Fargo, na Dakota do Norte, nos Estados Unidos, e os termos estabelecem que o serviço é regido pelas leis daquele estado.

O site declara ser hospedado nos Estados Unidos e integra a marca Tastier Adventures, que reúne outros serviços de entretenimento, como o BracketFights (chaveamentos) e o TriviaCreator (quizzes).

A plataforma se popularizou impulsionada por youtubers e streamers que usam o formato para ranquear de personagens de games a redes de fast food.

Os termos de uso da TierMaker revelam contradições. O documento afirma que o site “é destinado a usuários com pelo menos 18 anos” e que menores estão proibidos de usá-lo ou se registrar, mas não há qualquer mecanismo de verificação de idade. A lista do Colégio Cruzeiro foi criada por adolescentes.

Os termos de uso também vedam a publicação de conteúdos que explorem menores de 18 anos de forma sexual ou violenta. Ao mesmo tempo, a empresa afirma não ter a obrigação de monitorar as publicações feitas pelos usuários.

A cláusula de arbitragem estabelece que eventuais disputas serão resolvidas no condado de “__________”, mas o nome do local permaneceu em branco na versão publicada.

A lista com as alunas do Cruzeiro é investigada pela Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima, que já reuniu ao menos sete registros de ocorrência.

As faixas do ranking traziam rótulos sexuais e depreciativos aplicados às estudantes. O conteúdo foi retirado do ar após denúncia direta do colégio à plataforma, sem passar por nenhum órgão público.

A polícia também apura a criança de uma lista sexual com alunas adolescentes do IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro). O caso ocorreu em agosto do ano passado e, apesar de os autores terem sido identificados, o inquérito ainda não foi concluído.

FORA DO RADAR DA FISCALIZAÇÃO

Questionada pela reportagem, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados), responsável por fiscalizar o ECA Digital, informou que não foi notificada sobre o caso e que, desde a entrada em vigor da lei, em 17 de março, não recebeu nenhuma solicitação de remoção de conteúdo digital em seu escopo.

Ainda conforme a ANPD, a plataforma não está entre as empresas monitoradas na primeira fase de implementação do ECA Digital, que prioriza aplicativos (App Store e Google Play), sistemas operacionais (Windows), e sites pornográficos com foco em mecanismos de aferição de idade. A fiscalização com aplicação de sanções está prevista para se consolidar em janeiro de 2027.

Para Rodrigo Nejm, doutor em psicologia e especialista em educação digital do Instituto Alana, a priorização não isenta plataformas fora da lista. “Crime é crime, independente do meio”, afirmou à reportagem.

Segundo ele, o ECA Digital impõe deveres de prevenção, e não apenas de reação, a serviços de acesso provável por crianças e adolescentes —e o acervo da TierMaker pode ser um problema em si.

“Remover conteúdo denunciado não supre a obrigação preventiva se há, sistematicamente, veiculação de conteúdos sexualizando crianças e adolescentes”, disse.

Nejm vê nos rankings sexualizando meninas o sintoma de “um ecossistema digital que banaliza a sexualização e a violência contra meninas antes mesmo de qualquer ranking envolver colegas reais”.

Segundo ele, a reprodução desse tipo de conteúdo é resultado de diversos fatores que se combinam, como “a dessensibilização por exposição contínua a conteúdo impróprio, falhas de moderação nas plataformas, discurso misógino de figuras públicas e políticas que normalizam a violência de gênero”, afirmou.

O especialista aponta que a prevenção deve envolver escolas, famílias, plataformas e autoridades, com ações permanentes de conscientização e orientação sobre os riscos e limites do ambiente digital.

Nejm lembra que listas depreciativas já existiam antes da internet. “A própria dinâmica de ranking já existia nas escolas antes da internet, com papel e caneta ou nas portas dos banheiros. Mas o que era algo anônimo e ‘clandestino’, parcialmente visível e com começo, meio e fim, passa agora a ser algo publicamente disponível na rede mundial de computadores com registros que se multiplicam e podem voltar a perturbar as vítimas anos depois”, afirmou.