SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O período de férias escolares mudou a rotina de atuação de grupos que aliciam crianças e adolescentes pela internet. Se antes os casos se concentravam durante a madrugada, agora as transmissões com automutilação, violência e exploração de menores de idade ocorrem ao longo do dia, aproveitando que muitos jovens passam mais tempo sozinhos e conectados.

Diante desse cenário, a delegada Lisandréa Salvariego Colabuono, chefe do Noad (Núcleo de Operações e Articulações Digitais) da Polícia Civil de São Paulo, faz um alerta aos pais e responsáveis: é preciso acompanhar de perto a rotina digital dos filhos durante as férias.

Segundo ela, muitos adolescentes permanecem em casa enquanto os pais trabalham e acabam sob os cuidados de avós, tios ou outros familiares que, muitas vezes, desconhecem os riscos do ambiente virtual.

“Eles ficam com acesso irrestrito às telas, porque criança com tela e adolescente com tela não dão trabalho. Mas é justamente nesse período que esses grupos se aproveitam para agir”, afirma.

A delegada explica que a mudança no comportamento dos criminosos foi percebida nas investigações conduzidas pelo Noad. O que antes era monitorado quase exclusivamente durante a madrugada passou a ocorrer em qualquer horário do dia.

“Tudo o que a gente via nas madrugadas agora acontece às 9h, às 10h, às 11h da manhã. Encontramos servidores em que crianças estão se cortando durante o dia. Isso migrou completamente”, diz.

De acordo com a delegada, os criminosos buscam cada vez mais audiência para as transmissões. “Eles querem ser vistos. Já identificamos transmissões com plateias de até 800 pessoas.”

Entre 15 de junho e 15 de julho, período que coincide com as férias escolares em parte do país, o Noad registrou, em média, de 9 a 11 ocorrências diárias relacionadas a grupos que induzem crianças e adolescentes à automutilação, ao suicídio e a outros crimes praticados em plataformas digitais.

Desde a criação em novembro de 2024, o núcleo reuniu um banco de dados com mais de 1.900 alvos. As investigações já resultaram na prisão ou apreensão de mais de 600 pessoas.

Segundo o núcleo, as ações também impediram que 406 crianças e adolescentes fossem vítimas de grupos que incentivam automutilação e suicídio. Além disso, mais de mil animais foram resgatados em investigações sobre zoosadismo, prática de violência contra animais transmitida ao vivo pela internet.

Como evitar o aliciamento

Para a delegada, a principal ferramenta de prevenção continua sendo a participação da família na vida digital dos filhos. “Hoje estamos lidando com famílias totalmente desconectadas. Os filhos estão conectados com a internet, mas desconectados dos pais”, afirma.

Ela orienta que pais e responsáveis:

– acompanhem o conteúdo consumido pelos filhos na internet;

– conversem com frequência sobre jogos, redes sociais e amizades virtuais;

– conheçam os aplicativos utilizados por crianças e adolescentes;

– utilizem ferramentas de controle parental;

– estabeleçam limites para o tempo de uso das telas;

– observem mudanças de comportamento, isolamento, automutilação ou excesso de sigilo sobre a vida online.