RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A iniciativa RioAgora.org lançou nesta segunda-feira (20) um plano com diagnósticos e sugestões para o estado do Rio de Janeiro enfrentar problemas nos próximos anos e estimular o desenvolvimento de diferentes áreas, como segurança pública e gestão fiscal.
Conforme os responsáveis, um dos destaques é a proposta de criação de uma central de resultados subordinada ao governador. A ideia é que essa central acompanhe metas, monitore indicadores e ajude a organizar as decisões das diferentes áreas da administração.
Com 113 páginas, o plano foi apresentado em um evento na tarde desta segunda-feira (20) no Museu do Amanhã, na capital fluminense.
A iniciativa afirma que o objetivo é subsidiar programas de governo nas eleições de 2026, elencando os desafios do estado.
A RioAgora.org afirma que convidou para a cerimônia desta segunda especialistas que contribuíram para a produção do trabalho, representantes da sociedade civil e políticos locais.
O evento, porém, não teve a presença de nomes cotados para concorrer ao governo estadual em outubro. O governador interino, desembargador Ricardo Couto, também não esteve na agenda.
Guilherme Cezar Coelho, fundador da RioAgora.Org, disse à Folha que o estado é um exemplo de “tragédia institucional”.
Na visão dele, o estado tem uma capital com grande infraestrutura em áreas como saúde, transportes e educação, mas foi alvo de décadas de má gestão e corrupção.
Para Coelho, um modelo que pode servir de inspiração para o Rio de Janeiro é a “reviravolta institucional” vivida pelo vizinho Espírito Santo nos anos 2000.
O ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung, que comandou o Executivo capixaba à época, discursou na abertura do evento no Rio.
Conforme a RioAgora.org, que se apresenta como uma iniciativa apartidária e sem fins lucrativos, o plano foi construído a partir da contribuição de cerca de 40 especialistas.
Para a organização, os problemas fluminenses são “transversais” ou seja, atravessam diferentes campos da sociedade.
Na avaliação de Coelho, segurança e gestão fiscal podem ser consideradas como as áreas com os maiores desafios.
SEGURANÇA PÚBLICA
Ao tratar da segurança pública, plano afirma que o crime organizado e a “desorganização” da gestão estadual sustentam a persistência da violência, da corrupção e do medo.
Para a RioAgora.org, a situação não será resolvida com slogans, operações policiais “episódicas” ou medidas isoladas.
A iniciativa defende a ideia de que o estado negocie com o governo federal uma força-tarefa permanente de combate ao crime organizado.
A RioAgora.org cita quatro desafios principais a serem enfrentados na segurança: controle de territórios por grupos criminosos armados, letalidade policial elevada, crimes patrimoniais e corrupção por agentes do Estado.
“O que falta é a decisão política de reconstruir a governança, proteger a vida como prioridade (inclusive reduzindo letalidade), desarmar a engrenagem econômica do crime, aumentar a elucidação de homicídios e tratar corrupção como inimiga central da política pública”, diz o plano.
CENTRAL DE RESULTADOS
O documento afirma que o estado reúne uma “combinação rara” de características como capital humano, presença de instituições científicas, patrimônio cultural, infraestrutura, marca internacional e base energética, mas sofre para transformar os ativos em resultados.
“A principal proposta transversal [do plano] é a criação da Central de Resultados, subordinada ao governador, para monitorar prioridades, antecipar riscos, destravar decisões e acompanhar entregas”, aponta o documento.
A central, contudo, só fará sentido se trabalhar com poucas metas, indicadores verificáveis, orçamento vinculado e reuniões periódicas de decisão, diz a RioAgora.org.
A unidade não substituiria secretarias nem órgãos de controle, mas organizaria o núcleo do governo para a retirada do plano do papel.
“A reconstrução do Rio dependerá menos de novas promessas e mais da capacidade de cumprir, monitorar e corrigir até que o resultado chegue à população”, afirma o documento.
O texto diz que a principal referência internacional para a central de resultados é um órgão criado na gestão do ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair (1997-2007).
Também cita experiências adotadas nos estados de Minas Gerais, em 2011, e São Paulo, em diferentes ciclos administrativos.
A RioAgora.org é ligada à República.org, organização que também se descreve como apartidária e sem fins lucrativos e é voltada à melhoria da gestão de pessoas no serviço público brasileiro.
O financiamento é de AFloresta.org, coletivo de iniciativas com o objetivo de reduzir a desigualdade de renda no Brasil.
CRISE FISCAL
Conforme o plano apresentado nesta segunda, a crise fiscal do Rio de Janeiro “não foi súbita” e decorre de questões estruturais, choques externos e acúmulo de erros.
O documento cita a dependência do petróleo, o crescimento de despesas com pessoal e previdência e o registro de problemas de gestão (ausência de planejamento, fragilidades institucionais, má alocação e escândalos).
Para reverter o quadro, a iniciativa sugere, por exemplo, revisar incentivos fiscais e renúncias com base em critérios de custo-benefício e transparência.
Também defende a implementação de uma política estadual de gestão estratégica de pessoas, a “simplificação” de carreiras do funcionalismo e a realização de concursos públicos planejados, que priorizem vagas estratégicas e capacidades hoje deficitárias.
A publicação ainda traz um diagnóstico e ideias para educação, saúde, meio ambiente, mobilidade, habitação e governança territorial, desenvolvimento econômico e social, transparência e cultura.
Na área de desenvolvimento econômico e social, o plano afirma que o Rio de Janeiro não tem convertido suas capacidades em uma “redução sustentada” de desigualdade e informalidade no mercado de trabalho.
A estrutura produtiva, conforme o documento, permanece “pouco complexa e vulnerável a ciclos do setor extrativo”.
O texto defende o uso do potencial energético do estado como alavanca para o desenvolvimento de novas atividades e a necessidade de uma política com foco nas dificuldades de emprego e renda na Baixada Fluminense.
Segundo a RioAgora.org, o estado não aproveita plenamente a presença de ativos como a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), instituição de ciência e tecnologia ligada ao Ministério da Saúde, por falta de capacidade industrial associada.



