SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um corredor de água brota entre folhas espalhadas pelo chão. É dessa pintura que surge o nome “Água da Mata”, mostra de Miguel Penha Chiquitano que fica em cartaz na Zipper Galeria, em São Paulo, até agosto.
Nascido às margens do rio Cuiabá, no Mato Grosso, o artista passou a infância próximo a plantas e fez delas sua matéria-prima. Com o tempo, reverteu o conhecimento em quadros que detalham raízes, caules e copas de árvores, além de inserir as estruturas vegetais em cenários com algum grau de fantasia.
Isso porque o pintor mistura, em seu processo criativo, suas observações diárias e as lembranças da época em que vagava pela floresta com o pai biológico, um indígena do povo Chiquitano.
“A arte me conecta com minha origem”, diz o artista. “Ela me aproxima da origem de meus ancestrais, longe desse mundo tão tecnológico e alienado.”
Hoje, aos 64 anos, ele vive no município de Aldeia Velha, na Chapada dos Guimarães, onde vê o Cerrado e o Pantanal do conforto do ateliê. Foi ali que nasceu a mãe do artista, mulher da tribo Bororo e de quem foi afastado ainda jovem, quando decidiram que estaria mais seguro com um casal do Distrito Federal.
Apesar dos trabalhos objetivos, vários elementos recuperam uma espiritualidade ancestral. Em “Igarapé Azul”, por exemplo, fileiras da espécie-título abrem caminho para uma névoa azulada. O modo com que ela se espalha pela obra lembra uma manifestação da natureza.
Já em “A Chuva”, como o título sugere, uma coluna de água se forma no topo de um amontoado de árvores. Logo acima, nuvens imponentes tomam a parte superior da pintura. A relação entre os corpos hídricos e a vegetação é complementada por “Floresta Escura”, em que um rio serpenteia pela mata verde-escura.
Para o curador Josué Mattos, o cuidado ao representar essas forças, junto às cores que contrastam o quente e o frio, permite ao público, também, ouvir e sentir esses ambientes.
“A produção de Chiquitano confronta uma hegemonia desenvolvimentista, que vê ganhos imediatos como a única medida para o sucesso”, afirma ele. “Seu trabalho é generoso ele vê a natureza como algo que não é externo ao ser humano, mas constitutivo dele, e não condena quem reproduz essa desconexão.”
Seguindo as pinceladas de Chiquitano, que em certos casos ignoram a profundidade e unem galhos, troncos e pedras em um mesmo plano, é como se os espaços pudessem se sobrepor aos visitantes mesmo que, ironicamente, o homem não apareça nas telas.
Outro aspecto que chama a atenção é a maneira como, na ordem proposta pela galeria, o ponto de vista representado sobe, progressivamente, do solo aos céus. É quase um aceno à pequenez do homem em comparação à escala monumental da natureza.
“Chiquitano ocupa um lugar precioso em um momento de revisão histórica que valoriza artistas que articulam arte, educação e ecologia”, explica Mattos, segundo quem o repertório do artista também revê a simplificação das artes indígenas.
“O homem se identifica com a natureza por fazer parte dela. Talvez o afastamento se dê por falta de oportunidade”, diz Chiquitano, que cresceu longe de suas raízes pela violência contra os povos originários e as fontes naturais. “Para criar, devemos manter a vibração e a essência desse monumento.”
Água da Mata
Quando Seg. a sex., das 10h às 19h; sáb., das 11h às 17h; até 1 de agosto
Onde Zipper Galeria – R. Estados Unidos, 1494, São Paulo
Preço Grátis
Autoria Miguel Penha Chiquitano



