SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No dia da oferta de ações da SpaceX ao mercado, o BDR (recibo depositário de ações, na sigla em inglês) da empresa movimentou R$ 145 milhões em negociações na Bolsa brasileira.

Pela primeira vez, esse produto financeiro –investimento indireto em ações de empresas estrangeiras– foi lançado na mesma data do IPO (oferta pública de ações, na sigla em inglês). O valor movimentado logo na estreia ficou acima da média diária dos dez BDRs mais negociados no último ano, segundo a B3.

A perspectiva, segundo a economista Bianca Maria, gerente de produtos de equities da B3, é que seja cada vez mais comum a emissão de BDRs atrelada a novas listagens de empresas no mercado internacional. “O caso da SpaceX mostrou que o investidor brasileiro pode acessar grandes eventos do mercado internacional praticamente de forma simultânea”, afirma.

Até 2020, o investimento em BDR era possível somente para investidores qualificados –quem tem mais de R$ 1 milhão em aplicações ou possui certificação técnica reconhecida pelo mercado.

Seis anos após a abertura desse produto ao varejo, há 954 mil investidores em BDRs de ações e 57 mil em BDRs de ETFs (sigla em inglês para os fundos de índice). Nos dois casos, a quantidade de pessoas físicas ultrapassa os 98%.

No entanto, o investimento em ativos estrangeiros ainda é baixo no Brasil, afirma Rodrigo Aloi, head de pesquisa e estratégia da HMC Capital. “Quando se compara com o comportamento do investidor chileno ou americano, o brasileiro tem um viés por preferir ativos brasileiros em detrimento dos ativos globais.”

Segundo ele, 95% a 98% do patrimônio investido pelos brasileiros está em ativos domésticos.

Para Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, essa preferência se deve a uma falsa sensação de controle. Investir, de forma direta ou indireta, em ativos de fora, em especial os ligados à Bolsa americana, é, de acordo com ele, uma forma de proteger o patrimônio de instabilidades internas.

“A Bolsa do Brasil é pequena, então casos como o da fraude da Americanas ou do Banco Master acabam influenciando o mercado todo. No mercado americano, é muito mais difícil haver alguma queda estrutural relacionada a esse tipo de problema”, diz.

Investimentos internacionais podem ser feitos de forma direta, por meio de contas no exterior, ou indireta, por meio da compra de ativos estrangeiros na Bolsa brasileira.

Especialistas recomendam a segunda opção para quem deseja diversificar a carteira sem precisar comprar moeda estrangeira e, com isso, pagar IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) no momento da remessa e do retorno do dinheiro.

No entanto, aplicar em ativos atrelados ao dólar, afirma Praça, é difícil para quem tem perfil mais conservador: “Tem gente que não consegue ver o dinheiro cair.” O BDR da SpaceX (SPCX34), por exemplo, teve queda de 23% neste mês, acompanhando a ação da empresa.

Aos principiantes em ativos internacionais, os especialistas recomendam investir em ativos mais amplos, como os ligados ao S&P 500 ou à Nasdaq (relacionada a empresas de tecnologia).

O investimento em BDRs de empresas específicas, dizem os especialistas, deve ser feito por quem tiver mais experiência e possibilidade de acompanhar as cotações.

Rodrigo Alvarenga, sócio da One Investimentos, assessoria ligada ao BTG Pactual, diz que BDRs, ETFs e BDRs de ETF disponíveis para negociação no mercado nacional são representativos dos principais índices estrangeiros e a praticidade de investir pela B3 pode ser mais atrativa para o investidor médio.

“As diferenças, de maneira geral, não são tão significativas para o investidor brasileiro médio, que muitas vezes vai ter um ticket médio menor. Aqui na B3 tem essa questão da simplicidade. Para alguém que, por exemplo, já compra ações da Vale, é muito fácil comprar ações da Nvidia, comprar um ETF de S&P 500”, afirma.

O S&P 500 (Standard & Poor’s 500) é o índice de referência do mercado de ações dos Estados Unidos, e reúne as 500 principais empresas americanas de capital aberto. Na B3, é possível investir em ativos que acompanham ou reproduzem esse índice.

A principal diferença entre ETFs e BDRs de ETFs relativos a índices estrangeiros está na forma como o ativo é constituído. O ETF é um fundo de índice criado por uma gestora para replicar um índice de referência. Já o BDR de ETF é um recibo de cotas de um ETF estrangeiro.

No primeiro, é como se a gestora montasse uma cesta de produtos com cotas de ações ou fundos de fora do país e as disponibilizasse ao mercado. No segundo, a gestora ou depositária compra cotas dos ETFs estrangeiros e emite certificados conforme a demanda dos investidores.

Para Bianca Maria, da B3, os dois produtos têm características semelhantes: são negociados em reais, dentro de uma conta em corretora local, sob a infraestrutura da Bolsa brasileira, sem que o investidor precise abrir conta no exterior ou enviar remessas para fora do país.

“A escolha entre estruturar um ETF local ou um ETF global (BDR de ETF) depende, essencialmente, de dois fatores. O primeiro é o emissor: gestoras com estrutura de gestão no Brasil tendem a lançar ETFs locais, enquanto gestoras sem operação local costumam preferir trazer, na forma de recibo, ETFs já listados no exterior”, afirma.

“O segundo é a liquidez: no ETF local, ela se forma nos mercados primário e secundário da própria B3; já no BDR de ETF, a liquidez deriva, em última instância, da liquidez do ETF que serve de lastro, negociado no exterior”, diz.

Segundo dados da B3, os três BDRs de ETF com maior valor médio de negociação diária entre maio de 2025 e o mesmo mês de 2026 são relacionados a ouro, prata e bitcoin. Os três estão entre os chamados ativos alternativos (não são ações ou investimentos em fundos de renda fixa, por exemplo).

Rodrigo Alvarenga, da One, atribui a liderança desses fundos de índices globais à volatilidade dos ativos e à possibilidade de maior liquidez.

“O investidor comum não vai comprar uma barra de ouro ou prata porque é muito caro, não é uma coisa fácil de se fazer, não é prático e seria muito menos líquido. Investir em corretoras de cripto é algo que requer um pouco mais de sofisticação. Então pode ser interessante investir uma parte do seu patrimônio em cripto via ETFs ou BDRs de ETF”, afirma.

Para Rodrigo Aloi, da HMC, as altas e baixas dos ativos alternativos atraem o investidor. No entanto, a internacionalização dos investimentos deve seguir outras etapas antes de chegar a ETFs de criptoativos, por exemplo.

“Primeiro, é preciso construir alocação de investimentos com ativos tradicionais e depois complementar com os alternativos porque eles vão acrescentar ao portfólio um nível de resiliência muito alto”, diz Aloi.

Essa resiliência, segundo ele, se deve à baixa relação entre os ativos alternativos e os tradicionais: “O bitcoin é disruptivo por natureza e um potencial substituto de reservas de valor, e você tem o ouro como um potencial substituto para os ativos mais seguros do mundo, como o dólar. É uma alternativa de proteção e preservação de capital”.