BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – Andy Burnham toma posse nesta segunda-feira (20) como primeiro-ministro do Reino Unido, o sétimo em uma década. Ou desde o brexit, a desastrosa separação do país da União Europeia, que acelerou o que deveria frear, a estagnação da economia britânica e a perda de relevância do país no cenário internacional.

Se Burnham é o homem para a missão, após dois anos hesitantes de Keir Starmer, é uma pergunta que os britânicos vêm fazendo desde o mês passado, quando a troca de guarda no Partido Trabalhista se impôs. Até então, o ex-prefeito de Manchester era apenas a figura mais popular da legenda, que Starmer tentava conter ainda imaginando que seria o grande reformador do país, ungido pela vitória esmagadora sobre os conservadores em 2024.

Não foi. Sobreviveu a escândalos, mas não à derrota do trabalhismo para a ultradireita em pleitos regionais, em maio. O premiê, que formalmente renuncia nesta segunda e abre espaço para rei Charles 3º convocar o substituto, teve que ceder aos apelos dos colegas do próprio partido, preocupados com a condução do governo até 2029, prazo para as eleições gerais.

Segundo analistas, Burnham tem ainda menos tempo para mostrar trabalho.

O histórico da política local mostra que, para premiês alçados sem votação popular, é importante chancelar o apoio parlamentar com uma eleição antecipada. Para tanto, suas promessas de reformas institucionais e de reversão de 40 anos “de rumos errados” trilhados pelos conservadores precisam logo ganhar tração.

Apenas com a confirmação popular Burnham teria tempo para construir o programa de longo prazo que propõe, focado em reindustrialização, emprego, custo de vida e habitação. Ou, “bom crescimento em todos os códigos postais”, um dos tantos bordões que cunhou nas últimas semanas.

O futuro primeiro-ministro, afinal, parece ser “a última cartada dos partidos tradicionais britânicos em meio à crescente insatisfação dos eleitores e ao populismo político”, escreveu em editorial o Financial Times. Foi o jornal financeiro que antecipou na semana passada a indicação de Shabana Mahmood, da ala mais à direita do Partido Trabalhista, para o principal cargo do gabinete, a pasta de Finanças.

O nome de Mahmood “aliviou os mercados”, segundo o periódico, desconfiados de um premiê que fala de “socialismo pró-negócios”, reestatização de serviços públicos e descentralização de poder. Ao ser escolhido como líder dos trabalhistas, na sexta-feira (17), Burnham afirmou que a composição de seu gabinete não seria ditada pela City.

A ver por quanto tempo os cacoetes trabalhistas funcionarão no novo posto.

Apelidado de “rei do Norte” pela popularidade atingida em Manchester, que conduziu de 2017 até este ano, com duas reeleições pelo caminho, Burnham tem facilidade com a comunicação, um dos pontos frágeis do governo Starmer.

Nascido em Aintree, um subúrbio de Liverpool, filiou-se ao Partido Trabalhista com 15 anos. Estudou em Cambridge, trabalhou alguns anos como jornalista, mas logo se envolveu com a política. Antes do posto atual, em Makerfield, que disputou em junho para poder se tornar primeiro-ministro, representou outro distrito da Grande Manchester, Leigh, de 2001 a 2017.

Ocupou diversos cargos nos gabinetes de Tony Blair e Gordon Brown, incluindo o posto de secretário de Saúde, o equivalente a ministro no país, de 2009 a 2010. Com a volta dos conservadores ao poder, concorreu sem sucesso por duas vezes à liderança trabalhista.

Foi, no entanto, a trajetória em Manchester –tornada movimento político, “manchesterismo”–, que credenciou Burnham para ocupar o número 10 de Downing Street, a partir desta segunda.

O que o manterá no cargo, por óbvio, será a manutenção da política fiscal rígida, mantra renovado após a aventura protagonizada por Liz Truss, conservadora que durou apenas 45 dias no poder, mas também respostas rápidas a dilemas polarizados, como a relação com os EUA de Donald Trump, a guerra da Ucrânia, o conflito no Irã e a exploração de petróleo no mar do Norte.

Promessa de campanha dos trabalhistas, novas perfurações na região foram proibidas pelo governo Starmer em busca do net zero, o balanço neutro de emissões. Diante de custos de energia crescentes para a população, o assunto foi explorado tanto pelo populista Nigel Farage, do Reform UK, que lidera as pesquisas de opinião, como pelo lobby oportunista da indústria petrolífera.

No sábado (18), manter o Reino Unido na trilha de energia limpa era uma das demandas de uma série de protestos que cercaram o Parlamento britânico em Londres. “Andy, diga não a Rosebank”, diziam vários cartazes, em referência ao maior campo petrolífero inexplorado do país, na Escócia, algo como a margem equatorial no Brasil.

Parlamentares próximos a Burnham afirmam que o futuro primeiro-ministro saberá encontrar um caminho razoável em meio a essa e outras disputas. Os últimos seis que tentaram não conseguiram.