EAST RUTHERFORD, NOVA JERSEY, EUA (FOLHAPRESS) – No duelo entre o grande time e o grande nome da Copa do Mundo, deu Espanha. Se o brilhantismo de Lionel Messi teve enorme papel na classificação da Argentina à decisão, o jogo coletivo da formação europeia acabou prevalecendo na luta pelo título, com uma vitória por 1 a 0, definida na prorrogação.

O craque da formação celeste foi muito bem marcado na tarde de domingo (19), no MetLife Stadium, em East Rutherford, nos Estados Unidos. Os comandados de Luis de la Fuente não deram chances de gol ao adversário. Dominaram as ações a seu estilo, sem pressa, e tiveram a oportunidade de jogar os 30 minutos extras com um jogador a mais.

Nos acréscimos da etapa final, Enzo Fernández levou o segundo amarelo e foi expulso por falta dura em Cubarsí –minutos antes, levara tolamente o primeiro cartão, por reclamação espalhafatosa. Então, a Espanha achou o espaço para, após múltiplas tentativas, furar o bloqueio alviceleste e bater o goleiro Emiliano Martínez.

O gol saiu no primeiro minuto do segundo tempo extra. Pedro Porro recebeu de Lamine Yamal e cruzou para Nico Williams, que escorou de cabeça para o herói do dia, Ferrán Torres. Àquela altura, a campeã mundial de 2022 tinha a incrível estatística de zero finalização. E, com um a menos, não teve força para repetir as viradas vistas em fases anteriores.

A Espanha chegou, assim, ao bicampeonato mundial. Vencedora em 2010, na África do Sul, com a excepcional geração liderada por Andrés Iniesta e Xavi Hernández, voltou ao topo apostando outra vez no toque de bola. E outra vez contando com uma defesa firme.

Há 16 anos, a equipe alcançou o troféu com apenas dois gols sofridos em sete partidas. Desta vez, o goleiro Unai Simón buscou a bola na própria rede apenas uma vez em oito jogos, melhor marca de um campeão.

A consistência tem sido a marca do time, que conquistou a Eurocopa em 2024 e agora é o dono da maior série sem derrotas de todos os tempos no futebol de seleções. São 38 jogos de invencibilidade, com 29 vitórias e nove empates em dois anos e três meses.

Deu certo a aposta da RFEF (Real Federação Espanhola de Futebol) em Luis de la Fuente, um técnico de experiência diminuta em equipes adultas. Conhecido pelo trabalho na formação de atletas, ele chegou às seleções da base da Espanha em 2013.

Medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, com derrota para o Brasil na decisão, ele foi alçado ao comando do grupo principal após a Copa do Mundo de 2022. Substituiu Luis Enrique, sob olhares de desconfiança, mas estabeleceu um impressionante jogo coletivo.

Com passagens pelo comando das formações sub-19, sub-21 e sub-23 da Espanha, o ex-lateral esquerdo conhecia bem vários dos jogadores que encontrou no time de cima. O craque Rodri, por exemplo, foi seu atleta ainda adolescente.

Com um estilo paizão e uma afetada simpatia que chega a irritar, De la Fuente estabeleceu uma boa conexão com os jogadores. Cucurella, por exemplo, prometeu que faria uma tatuagem com o rosto do chefe em caso de título.

O início da campanha na América do Norte, porém, passou a impressão de que o gesto não seria necessário. Na maior Copa da história, com sede em três países (Estados Unidos, México e Canadá) e 48 seleções, a Espanha estreou contra uma das estreantes, Cabo Verde, em um surpreendente 0 a 0.

Dali em diante, porém, foram só vitórias. A Espanha fechou a fase de grupos batendo Arábia Saudita (4 a 0) e Uruguai (1 a 0). No mata-mata, após um tranquilo 3 a 0 sobre a Áustria, precisou de gols no finalzinho marcados por Mikel Merino para superar Portugal (1 a 0) e Bélgica (2 a 1).

Nas semifinais, “La Roja” teve um desafio considerado duro e se impôs com relativa facilidade sobre a França: 2 a 0. Faltava derrubar a defensora do título, que tivera uma campanha com viradas heroicas, triunfos na prorrogação, decisões controversas da arbitragem e brilho de Messi.

No MetLife Stadium, os comandados de De la Fuente cumpriram o que haviam prometido e se mantiveram fiéis a seu estilo. Eles tentaram girar a bola durante todo o primeiro tempo, com 64,6% da posse, segundo a Opta Analyst.

Pressionada na saída, a Argentina tentava a sorte com bolas longas, sem sucesso. Messi participava pouco das ações. Recuou algumas vezes para buscar o jogo, mas mais observou o adversário trocar passes do que propriamente teve oportunidades de criação.

As poucas chegadas de perigo até o intervalo foram da Espanha. Na melhor delas, logo aos cinco minutos, Yamal tentou passe na área e, após desvio na marcação, recebeu de volta de Olmo. No bico da área, tentou o chute rasteiro, com novo desvio. Martínez usou os pés para defender.

Após um estendido intervalo para apresentações musicais de Madonna (com participação de Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho), Justin Bieber, Shakira e BTS, o panorama não mudou. Os dois técnicos rodaram seus times, sem que se alterasse o desenho do jogo.

A Espanha tinha a bola e a rodava em busca do gol. Teve bons momentos em cabeceios de Ferran Torres e Laporte e em batida de falta de Yamal, sempre com defesas de Dibu Martínez. Aí, veio a expulsão de Enzo Martínez, ao fim do segundo tempo.

Àquela altura, a equipe de vermelho tinha 15 finalizações (dez delas no alvo), contra nenhuma do adversário. No primeiro tempo extra, duas chances claras foram criadas em cabeceios. Nico Williams parou em Dibu, e Merino mandou para fora.

A rede Martínez chegou a ser balançada. Após uma dividida de Merino com Otamendi e outra com o próprio goleiro, a bola se ofereceu para Nico Williams. O árbitro esloveno Slavko Vincic, porém, viu falta na jogada.

Com a mística das viradas recentes e das vitórias improváveis, a Argentina se via brigando pelo título sem uma finalização em quase duas horas de futebol. Desta vez, não deu. Ferran Torres aproveitou sua chance no início do segundo tempo extra e fez a festa da Espanha, bicampeã mundial de futebol.