SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Depois de uma longa carreira como repórter, produtor de televisão e editor de livros da poderosa Objetiva, Roberto Feith lança aos 73 anos seu primeiro romance, “Filhos da Mãe Gentil”.

Ele conta que a estreia tardia vinha sendo preparada havia tempo. “A gente vai ficando mais velho, mais perto do fim e sente o impulso de criar”, afirma. Ele cita o ensaísta americano Kenneth Rexroth: “Contra a ruína do mundo só existe uma defesa: o ato criativo”.

O livro acompanha Roberval Pompermayer, jornalista veterano que perdeu espaço e acaba envolvido com a fabricação de celebridades, a contravenção, o mercado financeiro, a política e uma startup de inteligência artificial.

Para ele, o romance não representa propriamente uma ruptura. “Até hoje eu vivi da narrativa, de contar histórias. Como repórter, produtor e diretor de documentários e editor de livros. Acho que é o que eu gosto de fazer. Minha maneira de habitar o mundo.”

Roberval carrega algo dessa trajetória. Feith diz compartilhar “as dores” do personagem, um profissional experiente cujas aptidões deixaram de encontrar demanda evidente. O jornalista do romance, porém, não é apenas uma figura individual. “Ele também representa os desafios da imprensa nos dias de hoje”, diz o autor.

No livro, a decadência da imprensa se cruza com um ambiente em que fama, circulação em redes sociais e produção de imagem se tornaram formas de ascensão. “Em um universo obcecado pela fama, boa parte das oportunidades está na indústria da celebridade”, afirma Feith.

Ele sustenta, contudo, que a crise não eliminou a importância do jornalismo profissional. “Da mesma forma que, na hora do sufoco, vários personagens do livro acabam recorrendo aos conhecimentos do Roberval, a combalida imprensa profissional também tem mostrado o seu valor.”

A trama aproxima jogo do bicho, política, mercado financeiro, tecnologia e entretenimento e Feith define o livro como uma sátira do Brasil contemporâneo e diz que sua premissa é a permanência de um “capitalismo de compadrio”.

A fama também aparece como uma espécie de moeda social. “Com a explosão das mídias sociais e a cultura do espetáculo, a fama pode ser monetizada. Vira um caminho, possivelmente mais imediato e trivial, para as formas tradicionais de prestígio: riqueza e poder.”

Feith chama atenção menos para os influenciadores do que para as plataformas que os abrigam. “A grana que um influencer é capaz de faturar é irrisória comparada com a receita bilionária dessas gigantes que exploram o culto da celebridade instantânea.” Ele também associa os algoritmos dessas empresas à circulação de notícias falsas.

O percurso de Feith para chegar à Objetiva e transformá-la em uma das editoras mais importantes do país, a partir dos anos 1990, foi tortuoso.

Começou por meio de sua produtora, a Metavideo, que realizou para a TV Manchete uma série sobre a história do cinema brasileiro em 1988. O material não aproveitado na série virou um livro pela Nova Fronteira.

Pouco depois, o editor daquele livro, Alfredo Gonçalves, deixou a empresa para criar uma editora própria chamada Objetiva. Então procurou Feith: a empresa precisava de capital.

“Meus amigos disseram que era roubada. O livro, eles garantiam, estava destinado à obsolescência. O futuro estava no audiovisual”, diz. “Só Anna, minha mulher, deu força.”

Feith usou recursos da Metavideo para comprar a maioria das cotas da Objetiva. Ele atribui o sucesso a uma combinação de relações, competência editorial, ousadia e sorte. “Para uma pequena editora, mais difícil do que encontrar o primeiro grande sucesso é a continuidade. É publicar o segundo, o terceiro e o quarto.”

Feith não possui mais participação na Objetiva. Em 2005, vendeu o controle da editora —76% das ações, segundo registros da época— ao grupo espanhol Santillana.

Em 2014, quando a Penguin Random House comprou a Objetiva e outros selos de interesse geral, Feith vendeu o restante de sua participação. No ano seguinte, a editora foi integrada ao Grupo Companhia das Letras, que já tinha a Penguin Random House como sócia.

Hoje, ele conduz na Intrínseca o selo História Real, dedicado à não ficção brasileira. Mas diz que escrever um romance exigiu outro tipo de trabalho. “A não ficção é construída em torno de fatos. É um repertório bem delimitado. A ficção nasce do intangível, da imaginação. É um repertório infinito.”

No fim, afirma, o leitor precisa entrar na construção desse mundo. “O autor propõe territórios, situações, personagens, mas o leitor tem que imaginar tudo aquilo que não está descrito e detalhado.”

FILHOS DA MÃE GENTIL

– Preço R$ 79,90 (352 págs.); R$ 39,90 (e-book)

– Autoria Roberto Feith

– Editora Intrínseca