FOLHAPRESS – “Quero ser presidente estudantil do Colégio Truham para acabar com a cultura do bullying e a homofobia, que fizeram da minha vida um inferno.” Essas são palavras de Charlie Spring, personagem de Joe Locke, em uma das primeiras cenas do filme “Heartstopper para Sempre”, que chegou ao catálogo da Netflix nesta sexta-feira (17).

O discurso poderia ser, também, vida real e saído da boca de Alice Oseman, autora das HQs que deram origem à série que fez enorme sucesso. Em parte, porque tornou viável o sonho do espectador LGBTQIA+ de múltiplas faixas etárias de se reconhecer numa narrativa feliz, algo nem sempre comum em filmes e séries queer.

O longa-metragem que serve de capítulo final dessas histórias, com quase duas horas de duração, traz um amadurecimento dos laços criados pelos personagens ainda na adolescência, ao longo de três temporadas, lançadas entre 2022 e 2024.

Dirigido por Wash Westmoreland, o filme tenta consolidar a ideia já trabalhada pela autora e também roteirista de que tudo muda, e que, apesar do título, nada é necessariamente eterno.

Assim, “Heartstopper para Sempre” aposta em longos arcos dramáticos que podem até arrastar a narrativa, mas que exercem funções muito claras ao lidar com os vários temas e letras introduzidos pela saga ao longo de mais de uma década.

Na trama de agora, Nick, personagem de Kit Connor, está em sua despedida do colégio e a relação com Charlie, papel de Joe Locke, fica conturbada essencialmente por uma falta de comunicação e diálogo entre os dois.

É como se o terceiro elemento, o casal, deixasse de lado sentimentos, aflições e angústias que corriqueiramente surgem, principalmente quando há o vislumbre de uma mudança importante de rotina.

Elle —Yasmin Finney— e Tao —William Gao—, amigos fiéis dos protagonistas, também enfrentam embates emocionais quando ela decide deixar a Inglaterra para integrar um programa de arte na Alemanha. Os conflitos convergem, e os casais seguem seus rumos separados.

Os fins dos relacionamentos são o ponto central da obra, e Oseman triunfa ao mostrar, com diálogos por vezes simples, mas que funcionam, uma evolução completa diante dos olhos do espectador —do despertar da sexualidade e do corpo na adolescência até a autorreflexão como sujeito no mundo, a assimilação e o enfrentamento diante de problemas e a chegada à vida adulta.

A trilha sonora do filme, como na série, surge como playlist “viva”, construída em tempo real. É como se o som também ganhasse travessão e diálogos e incorporasse os personagens em cena.

As composições de Billie Eilish, em “L’Amour de ma Vie”, Rose Gray, em “Free”, Angie McMahon, em “Letting Go”, e Maggie Rogers, com “Anywhere with You”, por exemplo, ajudam a contar a história final.

O discurso de Oseman lança mão da contemporaneidade para se mostrar declaradamente político ao abordar a expansão da extrema direita pelo mundo —inclusive, no Reino Unido, onde a obra se passa, e onde, em maio passado, o partido conservador Reform UK conquistou maior espaço nas eleições municipais.

Em determinada cena, Elle expõe o medo de seus direitos como pessoa transgênero estarem ameaçados e faz um apelo aos amigos para que a acompanhem na Parada LGBTQIA+ da cidade.

“Heartstopper”, do começo ao fim, quebrou paradigmas. Inseriu na tela discussões antes pouco usuais para produtos declaradamente voltados ao público mais jovem, que saía da infância rumo à adolescência. O enredo trouxe às telas debates bem estruturados sobre saúde mental, transtornos alimentares e, claro, as letras que compõem o grupo LGBTQIA+, que vai muito além da homossexualidade.

Em “Hearstopper para Sempre”, a amizade segue como um alicerce fundamental. Apesar de HQs, série e filme estarem centrados no romance de Nick e Charlie, é ela que serve de força motriz exemplar, inabalável diante de términos, conquistas e receios relacionados ao amor.

HEARTSTOPPER PARA SEMPRE

– Avaliação Muito bom

– Quando Estreia nesta sexta (17), na Netflix

– Classificação 14 anos

– Elenco Kit Connor, Joe Locke e Yasmin Finney

– Produção Reino Unido, 2026

– Direção Wash Westmoreland