(FOLHAPRESS) – Poucos caminhos, na música brasileira, são tão estranhos quanto o de Alaíde Costa. Nos anos 1960, da bossa nova e outras bossas, emergiu como uma das maiores cantoras do país. Depois vieram a música de protesto, o rock, o tropicalismo -ondas com que não se identificava. Depois foi, aos poucos, desaparecendo.
Não sumiu de todo. Era como se fosse lentamente se apagando da memória, seja de quem ouvia, seja de quem compunha. Alaíde saiu de moda, vamos dizer assim. E aí está o primeiro ponto de relevância do documentário “A Noite de Alaíde”, agora em cartaz nos cinemas.
Talvez, é apenas uma hipótese, Alaíde Costa seja delicada demais para um tempo tão indelicado, tão grosseiro quanto o atual. Mas ela já havia saído de moda há anos. Em 1988, ela gravou um álbum produzido por ninguém menos do que Milton Nascimento, mas passou longe do sucesso.
Foi desaparecendo, um pouco como sua amiga Claudette Soares, um pouco também como Johnny Alf. Ninguém dirá que eram pessoas sem talento; apenas não estavam muito de acordo com seu tempo. Então, “A Noite de Alaíde” serve como reparação ao estranho esquecimento de uma intérprete tão suave quanto original.
Mas não é esse o único ponto de interesse. Liliane Mutti, diretora do filme, supriu a deficiência de informações visuais com um recurso interessante: usou a animação para narrar a história da cantora, junto com a voz da própria e cenas de arquivo -por vezes muito ruins, diga-se, já que quase tudo vem de velhos e mal conservados tapes de TV.
Com isso, narra-se a trajetória de Alaíde Costa com alguma leveza, o que inclui mil incursões a programas de calouros, a rejeição pelo Copacabana Palace -por ser negra-, o encontro com Johnny Alf, a descoberta por Aloysio de Oliveira, importante produtor musical, o encontro com a turma da bossa nova, João Gilberto e, mais tarde, Vinicius de Moraes -e, finalmente, o sucesso.
Alaíde virou moda. Chegou a cantar no Theatro Municipal de São Paulo, em 1965, no histórico show “Alaíde e Alaúde”, encontro de clássico e popular, moderno e antigo, patrocinado pelo maestro e iconoclasta Diogo Pacheco.
Mas tudo isso não apagou algumas mágoas de Alaíde: com a turma da bossa nova que não a convidou na hora de ir aos Estados Unidos, em 1962, e que, pelas costas, lhe dava um apelido desagradável. Com o racismo em geral, que deixou suas marcas na cantora.
Ao mesmo tempo, momentos como o encontro com Milton Nascimento ou a parceria com Vinicius -que, aliás, a presenteou com um piano- parecem funcionar como recompensas pelos momentos difíceis.
O trabalho de Mutti consegue juntar o bom e o ruim, o feliz e o infeliz, o sucesso e o esquecimento -dela e de outros artistas significativos-, sem omitir o canto muito particular de Alaíde e, de passagem, participar de um certo “revival” do seu trabalho.
Não por acaso, Alaíde mereceu o que se considerou um desagravo por sua ausência no show da bossa nova em Nova York, quando cantou no Carnegie Hall em 2023. E, também não por acaso, Emicida a trouxe de volta ao estúdio de gravação. Afinal, a delicadeza e a suavidade talvez tenham seu lugar no século. É algo que, afinal, nos comunica o bom filme de Liliane Mutti.
A NOITE DE ALAÍDE
Avaliação Bom
Classificação 12 anos
Produção Brasil, 2026
Direção Liliane Mutti
Onde ver Em cartaz nos cinemas




