Com maior ou menor destaque, os enredos envolvendo o site em que criadores de conteúdo vendem filmes e fotos, em boa parte eróticos, capturam uma mudança na forma de produzir e consumir pornografia
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Do drama à comédia, do circuito universitário até o mercado financeiro, as séries de televisão americanas têm mostrado interesse crescente pela plataforma OnlyFans. Com maior ou menor destaque, os enredos envolvendo o site em que criadores de conteúdo vendem filmes e fotos, em boa parte eróticos, capturam uma mudança na forma de produzir e consumir pornografia na última década.
Os criadores de “Industry”, coprodução da HBO e BBC, introduziram a plataforma fictícia Siren como concorrente do OnlyFans na terceira temporada e aumentaram o seu destaque no ciclo seguinte. No final da sitcom do Disney+ “Abbott Elementary”, professoras com o emprego em risco cogitam entrar no MostlyFans, uma paródia também fictícia.
Na segunda temporada de “Treta”, da Netflix, o personagem de Oscar Isaac não transa com a mulher, vivida por Carey Mulligan, mas usa a plataforma para se masturbar no fim do dia. Os criadores de conteúdo adulto do site viraram até protagonistas, em séries como “Margô Está em Apuros” e “Prazer Máximo Garantido”, ambas do Apple TV, e na temporada derradeira de “Euphoria”, da HBO.
“Essas séries tentam refletir algo que se tornou normal na cultura e na nossa economia, que muda depressa. Quais histórias interessantes podem resultar desse tipo de relação de trabalho?”, questiona a crítica cultural britânica Sophie Gilbert.
Autora de “Garota Sobre Garota”, livro traduzido no Brasil este ano pela Todavia, ela conta que se surpreendeu com a influência da pornografia no imaginário feminino dos anos 2000, especialmente na televisão. Na obra, a jornalista refaz o seu caminho pelo “mainstream”.
Se a década de 1970 levou a liberação sexual às manchetes, a epidemia de Aids criou novos estigmas relacionados ao sexo. Na sua leitura, o que veio a seguir foi um reflexo dessa repressão, e as décadas seguintes levaram a uma hipersexualização da cultura pop.
No contexto atual, a saturação de histórias envolvendo o OnlyFans vem na esteira das mudanças de comportamento após a pandemia de Covid-19. “Os roteiristas querem mostrar como as nossas dinâmicas românticas e sociais, a forma como interagimos ou buscamos intimidade na internet, foram totalmente alteradas nos últimos cinco anos”, afirma Gilbert.
Desde 2016, a plataforma britânica soma 4 milhões de produtores de conteúdo e 300 milhões de usuários, sendo metade deles nos Estados Unidos. “Como sociedade, não sabemos como isso nos transformou ou quais são os seus riscos. Os bons contadores de história buscam enredos em que conseguem analisar o que as mudanças tecnológicas estão fazendo conosco.”
Na ficção, há erros e acertos na representação do site. Em “Euphoria”, por exemplo, Cassie, vivida por Sydney Sweeney, veste uma fantasia de bebê para agradar aos seguidores. Esse tipo de conteúdo, porém, seria removido da plataforma por associação à imagem de menores de idade.
Já em “Margô Está em Apuros”, a estratégia da protagonista de Elle Fanning está correta. Na trama, ela se associa a influenciadoras mais experientes para aumentar a base de seguidores e, por consequência, os valores recebidos por cada publicação.
Em entrevista ao Financial Times, a CEO do OnlyFans, Keily Blair, disse que as “gorjetas”, valores por conteúdos exclusivos, são maiores do que as assinaturas mensais. Por ali, 20% fica com a empresa e o restante vai para o criador até 2024, foram repassados US$ 20 bilhões ou R$ 104 bilhões.
Diferentemente de outras redes sociais, o aplicativo não está disponível nas lojas da Apple ou do Android, não tem anúncios e a barra de pesquisa funciona apenas para encontrar nomes de usuários. Logo, é pouco provável que novatas recebam cifras altas de imediato.
Nas duas séries, o arco das personagens conecta o site à promessa de dinheiro fácil, o que passa longe da realidade. Estima-se que 75% dos criadores façam menos de US$ 300 cerca de R$ 1.500 por mês.
Para a atriz pornô brasileira Lady Milf, as séries chegaram atrasadas. “Eles pegaram a onda quando ela estava se quebrando, e não se criando.”
“A ideia de que o OnlyFans traz dinheiro rápido não ajuda a mostrar como o trabalho realmente é. Como já tem tanta gente no mercado, a beleza não é o mais importante; dificilmente você vai se destacar só por ser loira, branca e bonita”, afirma a criadora de conteúdo adulto.
Há três anos, ela passou a oferecer cursos para mulheres que querem começar a produzir fotos e vídeos eróticos na internet. “Você precisa levar a profissão como uma empresa”, diz ela, que também mantém perfis em sites similares, caso do Privacy e do FanFever.
“Você precisa de constância nas publicações, equipamentos de gravação e fazer networking. Quando você começa sozinha, sem saber nada, só com o celular e a necessidade de pagar as contas, vem junto o desespero, e às vezes acaba caindo em circunstâncias das quais você se arrepende depois.”
O perfil de mulheres que buscam a sua ajuda varia, mas as jovens são as mais frequentes. “Elas mal saíram do ensino médio, vão fazer cadastro no site para vender foto do pé e acham que vão garantir a aposentadoria aos 20 anos.”
Na mentoria, Lady Milf aconselha a não se expor completamente, pois é possível fazer dinheiro apenas sensualizando, caso a mulher mude de ideia no futuro. “Tem público para tudo na pornografia, a gente fala que tem um chinelo para cada pé descalço. A menina não precisa se enquadrar no que ela não quer fazer.”
Produzir conteúdo adulto dentro de casa torna-se uma possibilidade de renda para as mães, como a personagem de Elle Fanning. Na história baseada no livro de Rufi Thorpe, ela vai parar no tribunal para lutar pela guarda do filho após ser enquadrada como trabalhadora sexual.
A situação é recorrente neste meio, como aponta Lady Milf. “Criar conteúdo vira uma oportunidade de alimentar a criança sem sair de casa. Sofri retaliações, ameaçaram tirar o meu filho, tenho uma advogada comigo. O que eu faço é uma profissão, estou dentro da legalidade, não preciso ter medo, mesmo que isso não esteja dentro da moralidade da sociedade.”
Depois de assistir a essas duas séries, o veredito dela foi que “Euphoria” transparece apenas os fetiches do diretor, Sam Levinson, enquanto “Margô Está em Apuros” tenta apresentar os perrengues da vida de uma mãe solteira. No entanto, para Lady Milf, a ficção ainda peca ao abordar as complexidades das trabalhadoras sexuais.
“A gente acaba sendo retratada como a coitada, a pessoa que está desesperada e precisa de ajuda. Muitas vêm dessa premissa, mas outras encontraram satisfação. Não precisamos trabalhar com isso para o resto da vida, podemos usar isso como ponto de partida para investir em nós mesmas, na educação dos nossos filhos e mudar a realidade da nossa família.”







