SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No dia da estreia da peça “Língua”, em 2024, no Rio de Janeiro, o diretor Vinicius Arneiro percebeu que o público surdo entrava no teatro e, automaticamente, se dirigia para os cantos da plateia, onde geralmente os intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) são visualizados com mais facilidade.

Ele ficou surpreso com o movimento e, ao mesmo tempo, percebeu que ele era óbvio. O público não ouvinte ainda não sabia que o espetáculo é totalmente inclusivo, criado e encenado em português e em Libras.

Naquele dia, com a ajuda de um intérprete, ele conversou com essas pessoas, as primeiras a chegar, e disse que elas poderiam sentar em qualquer lugar do espaço teatral.

Depois disso, “Língua” fez uma temporada bem-sucedida no Rio e apresentações na MITsp —Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Na primeira sexta-feira de junho, estreou no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, com apresentações até o final do mês.

Na estreia na capital paulista, deu para perceber que a comunidade surda se articulou para assistir à peça. No saguão, vários grupos usavam Libras para se comunicar antes do terceiro sinal e, no final, os aplausos foram com as mãos balançando.

Dessa vez, ninguém teve dúvidas sobre a possibilidade de sentar-se em qualquer cadeira, sem a preocupação com a visualização do intérprete. A língua de sinais está em toda a encenação.

“Língua” acompanha uma festa de aniversário preparada por uma mãe para o filho surdo. No encontro entre amigos, surgem as relações afetuosas, mas também os dilemas e as diferenças culturais. A peça mostra que ouvintes e não ouvintes compartilham a dificuldade humana de comunicar sentimentos.

O personagem principal, o taxista Matias, é interpretado por um ator surdo, Ricardo Boaretto. No elenco, três dos quatro atores ouvintes são fluentes na língua de sinais.

A dramaturgia de Arneiro e Pedro Emanuel ganhou o Prêmio Shell, edição carioca, no ano passado, e é um desdobramento de um projeto anterior, também bilíngue, apresentado no formato online pelo Itaú Cultural durante a pandemia, com um ator surdo em cena, Marcelo William.

“Esse projeto me deixou desejoso de desdobrar essa relação, essa irmandade entre Libras e português”, diz o diretor, um pesquisador das possibilidades da comunicação e da linguagem.

Na primeira experiência, William contou a Arneiro que só sentiu envolvimento emocional com uma peça quando já tinha 30 anos e viu uma montagem amadora e bilíngue do clássico “Romeu e Julieta”.

“Achei esse relato dele comovente”, recorda o diretor, que passou a pensar ainda mais sobre a situação apartada das pessoas surdas nas experiências artísticas.

A proposta dele é ir além da acessibilidade, assimilando a inclusão no processo criativo. Ao trabalhar com pessoas conectadas à comunidade surda, ele percebeu de forma mais enfática os abismos e os estigmas ainda existentes.

Arneiro prefere não romantizar o trabalho e afirma que a montagem enfrentou muitos desafios. “De fato, era um lugar até então completamente desconhecido em uma carreira de 20 anos como diretor”, diz.

Em algumas ocasiões, ficou desorientado e sem ferramentas na sala de ensaio para entender como gerir a comunicação e transformar os impasses em elementos dramatúrgicos.

“Dirigir um ator surdo, sem ser fluente em Libras, me coloca em uma camada muito superficial de comunicação com o Ricardo Boaretto”, admite. A solução foi ter um ótimo intérprete ao seu lado.

A experiência foi de formação para o diretor, que aprendeu mais sobre a linguagem de sinais, e para o ator, que fez sua estreia em um espetáculo profissional.

Os dois, além do restante do elenco, tiveram que lidar com uma comunicação cheia de ruídos, desafiadora, mas também estimulante.

Artistas e produtores surdos têm na Mostra Surda de Teatro, realizada em abril como parte da programação do Festival de Curitiba, uma oportunidade de mostrar suas criações para o público e programadores artísticos.

Com dez apresentações e público de 1.600 pessoas, a maioria não ouvintes, a Mostra Surda de Teatro chegou à sua terceira edição este ano.

A Capela Santa Maria, em Curitiba, recebeu estreias como “Sopro de Liberdade”, em que Emanuelle Laborit compartilha suas experiências, desafios e descobertas como pessoa surda; “Voz Invisível: Catharine Moreira”, performance poética que convida o público a interagir por meio da Libras; e “Gralha Azul Pinhão”, espetáculo que transforma a língua de sinais em instrumento de memória e preservação cultural.

Língua

Quando Até 28 de junho. Quinta a sábado, às 20h. Domingo, às 18h.

Onde Teatro Anchieta

Preço R$60 (inteira) R$30 (meia entrada) e R$18 (credencial plena do Sesc)

Classificação 16 anos

Autoria Vinícius Arneiro e Pedro Emanuel

Elenco Erika Rettl, Filipe Codeço, Jhonatas Narciso, Luize Mendes Dias e Ricardo Boaretto

Direção Vinícius Arneiro