SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Tony Ramos vê pouca semelhança entre ele e Otoniel, o avô conservador que interpreta em “Quem Ama Cuida” (Globo). Enquanto o personagem tem dificuldade para aceitar o neto gay, Mau Mau (João Victor Gonçalves), e frequentemente reage impondo suas próprias convicções, o ator afirma que na vida privada procura observar as pessoas sem julgamentos.
“Eu olho pela janela da vida e espio sem julgar o próximo. Otoniel é um brasileiro que não tem nada a ver comigo”, diz. Para ele, um dos méritos da novela é justamente colocar em debate temas como intolerância, preconceito e os conflitos geracionais presentes em muitas famílias brasileiras.
Em conversa com o F5, Tony afirma que o amor não pode servir de justificativa para atitudes preconceituosas e defende que o diálogo é o único caminho para a compreensão. Religioso, ele também rejeita a ideia de verdades absolutas e afirma se inspirar na mensagem de acolhimento de Jesus Cristo.
O ator, com mais de 60 anos de dramaturgia, ainda relembra a emoção de acompanhar o título mundial de 1958 pela seleção brasileira e declara apoio à presença de Neymar na Copa do Mundo, por considerar que o craque ainda impõe respeito aos adversários.
Como surgiu o convite para interpretar Otoniel em “Quem Ama Cuida”? Foi em setembro de 2025, durante um evento da Globo. O Walcyr Carrasco me chamou e disse que queria que eu interpretasse um aposentado, alguém com quem muita gente pudesse se identificar. Quando li os 12 primeiros capítulos, percebi que tínhamos uma linda novela nas mãos. O Otoniel me conquistou imediatamente.
Por que se encantou por ele? É um brasileiro de classe média baixa que trabalhou a vida inteira, fez horas extras, bicos, economizou para construir sua casa e acabou atingido por uma tragédia familiar. Fui estudando e observando esse homem e me apaixonei por ele.
O que torna Otoniel um personagem interessante? Ele me chamou atenção pelas reflexões sobre a vida e também por posturas muito conservadoras. Todos nós temos algum conservadorismo, mas muitas vezes ele é confundido com a incapacidade de aprender, evoluir e compreender o outro. O Otoniel foi educado de uma determinada forma e reage a partir disso.
E a relação com Mau Mau, o neto gay cuja orientação sexual Otoniel não consegue aceitar? Ele ama o neto, mas não entende plenamente a alegria e as escolhas dele. O fascinante é que a novela coloca em discussão a intolerância, o preconceito, o pré-julgamento. Isso pode até nascer do afeto, mas continua sendo algo que precisa ser enfrentado e superado.
Acha que o personagem representa uma parcela da sociedade? Sem dúvida. E não apenas os mais velhos. Há jovens que também reagem com agressividade e intolerância diante daquilo que não querem compreender. A novela funciona como um alerta para todos nós. Hoje é importante discutir esses temas, e não existe espaço melhor do que uma novela, capítulo após capítulo, para provocar reflexão sobre quem somos e como tratamos o próximo.
Você se identifica com alguma característica do Otoniel? Ele não tem nada a ver comigo. O que talvez exista em comum é o olhar para a vida. Eu procuro observar as pessoas sem julgá-las. Já o Otoniel, muitas vezes, impõe a própria verdade. Essa é justamente uma das características que a trama coloca em debate.
A novela debate a diversidade e tolerância. O que isso desperta em você? Se a maioria das pessoas se declara cristã, é importante lembrar que não existe verdade absoluta. Acima de qualquer verdade está Deus. Cristo foi um homem de tolerância, de afeto e de acolhimento. Você não é obrigado a ser igual ao outro, mas precisa compreender, respeitar e apoiar. Às vezes, a alma fica adormecida porque não quer ouvir.
Francesca, a misteriosa personagem de Nathalia Dill que aparece e desaparece do nada, desperta muitas interpretações espirituais. Quem o senhor acha que ela é? De onde vem? Não sei. Eu não tenho autoridade para falar sobre o ‘lado de lá’. Nas minhas orações, muitas vezes evoco a mãe da minha mãe, que foi uma pessoa fundamental na minha formação, e às vezes tenho a sensação de que ela está ao meu lado. É um tema delicado para tratar publicamente porque pode parecer uma cartilha religiosa. Sou uma pessoa religiosa, mas também libertária. Respeito todas as manifestações de fé. O que não suporto é a soberba de quem aponta o dedo e acredita ser dono da única verdade.
Qual é o papel da fé nos momentos difíceis? A minha fé é muito forte, mas não é cega nem obsessiva. Ela não foi imposta, mas nasceu das experiências que vivi. É algo profundamente pessoal e intransferível. Cada pessoa encontra seu caminho, e quem encontra sua fé respeitando o próximo merece ser feliz.
A Copa do Mundo está chegando. Qual lembrança mais o emociona? A de 1958. Eu estava na Vila Maria, em São Paulo, comemorando o primeiro título mundial do Brasil usando a camisa azul. Sou um brasileiro que ama a seleção. Vejo defeitos, claro, mas sou apenas um torcedor apaixonado.
Como você analisa o trabalho de Carlo Ancelotti como técnico? Confio nele. É alguém que ama futebol [ele começa a falar com sotaque italiano] e construiu uma carreira vencedora. Vou torcer por cada jogador convocado, como sempre fiz. Continuo acreditando na força da seleção brasileira.
Você levaria Neymar para o Mundial? Levaria, sim. Pela experiência, pela criatividade e também pelo que representa para as novas gerações. Talvez ele não esteja pronto para jogar imediatamente, mas pode estar em condições de atuar mais adiante. Mesmo na partida contra a Croácia, na última Copa, ele mostrou sua capacidade ao criar jogadas e marcar um gol. Com Neymar em campo, você impõe outro tipo de respeito ao adversário.


