SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A pressão nas redes sociais pelo fim da escala 6×1 na qual se trabalham seis dias com um de folga tem sido direcionada ao Congresso Nacional e aponta para explosão de menções em momentos-chave, como nos dias que antecederam a votação da medida na Câmara dos Deputados, ou quando parlamentares se mostram contrários à redução ou querem que ela ocorra apenas no futuro.
Levantamento inédito da 2L Digital mostra que, entre 1º de março e 24 de maio, mais de 220 mil publicações e compartilhamentos sobre o tema foram registrados em plataformas como X, Instagram, Facebook, TikTok, YouTube, Bluesky, blogs e portais.
Os dados apontam ainda que 7 em cada 10 postagem (68%) tiveram tom negativo, em especial contra parlamentares quem quer manter a escala de trabalho como está, enquanto 22% foram neutras e apenas 10% positivas. A maior parte das críticas foi direcionada ao Congresso, que tem sido visto pelo trabalhadores nas redes sociais como o principal obstáculo ao avanço da pauta.
O fim da escala 6×1 foi aprovado na Câmara em 27 de maio. A PEC (proposta de emenda à Constituição) reduz a jornada de 44 horas semanais para 42 horas em 60 dias, e para 40 horas em 2027, criando a escala 5×2, sem redução de salário. Há ainda outras mudanças.
O estudo identificou um crescimento das menções ao tema ao longo de abril, culminando em um pico de engajamento nos dias 20 e 21 de maio, durante a tramitação da proposta na Câmara dos Deputados.
Segundo a análise, quatro momentos estruturaram a narrativa digital: o envio do projeto em regime de urgência em 15 de abril, o Dia do Trabalhador em 1º de maio, a votação na Câmara em 20 de maio e a reação à emenda que previa adiar o fim da jornada para 2036, em 21 de maio.
De acordo com a 2L Digital, a escala 6×1 deixou de ser um assunto ligado apenas a movimentos sociais e sindicatos para ocupar o centro do debate público nas últimas semanas, o que tende a se repetir neste mês, quando o Senado se prepara para votar a medida. O levantamento aponta que o interesse pelo tema cresce sempre que há movimentações institucionais, especialmente no Legislativo.
Responsável pelo estudo, Leonardo Lima, chefe da 2L, afirma que a pressão exercida pelas redes sociais teve papel relevante na construção do ambiente político que antecedeu a aprovação da proposta pela Câmara, o que deve se repetir no Senado.
“Esse acúmulo de pressão digital, somado às mobilizações de 1º de Maio e ao pico expressivo de 20 e 21 de maio, ajudou a transformar o tema em custo político real”, diz ele.
Para Lima, embora a aprovação não possa ser atribuída apenas à mobilização online, já que no Congresso há outras formas de pressão, como a ação dos empresários e dirigentes de centrais sindicais, há uma relação evidente entre o aumento da cobrança pública e a mudança de posicionamento dos parlamentares.
“A aprovação na Câmara não pode ser explicada apenas pela conversa nas redes, mas é difícil dissociá-la desse ambiente de cobrança pública sustentada, que tirou o assunto da esfera sindical e o colocou no debate cotidiano do brasileiro comum”, destaca.
O estudo também registra um episódio considerado emblemático pelos pesquisadores, quando após repercussão negativa nas redes, sete dos nove deputados federais baianos que haviam assinado uma emenda para adiar a implementação da medida por até dez anos retiraram suas assinaturas em menos de 48 horas.
Na avaliação da consultoria, o debate na internet tende agora a mirar o Senado. Segundo Lima, a pressão digital poderá se intensificar na nova etapa da tramitação. “Quando a pauta tem dono na opinião pública, ela migra de casa legislativa com facilidade”, afirma ele, lembrando que o foco vai para onde a pauta está.
O chefe da 2L avalia que, diferentemente da Câmara, onde as críticas foram direcionadas de forma mais ampla ao Congresso, no Senado a tendência é de personalização das cobranças de forma específica sobre parlamentares identificados como contrários à proposta.
A pesquisa foi realizada com monitoramento de mais de 220 mil publicações e compartilhamentos, utilizando análise de volume, polaridade, identificação de picos de repercussão e mapeamento dos principais atores envolvidos no debate.
Uma segunda fase do estudo já está em andamento e acompanhará os desdobramentos da votação na Câmara e a tramitação da proposta no Senado.


