Da Redação
Especialista do Sebrae Goiás aponta mudanças no comportamento do cliente e orienta como empreendedores podem reagir
O alto nível de endividamento das famílias brasileiras já começa a refletir diretamente no desempenho dos pequenos negócios. Dados do Banco Central do Brasil indicam que cerca de 65% das famílias estão superendividadas, o que representa aproximadamente 130 milhões de pessoas com dificuldade de arcar com seus compromissos financeiros.
George Gustavo Toledo, gestor do Programa Conexão Financeira do Sebrae Goiás, explica que esse cenário altera o comportamento de compra.
“A família endividada sai do consumo por desejo e entra no consumo por prioridade. Isso se traduz em vendas mais lentas, tíquete médio menor e maior busca por promoções”, pontua.
O Banco Central também aponta uma expansão relevante do crédito sem garantia nos últimos anos. O número de brasileiros com empréstimos pessoais mais que triplicou desde 2020, chegando a 41,7 milhões. Já as dívidas no cartão de crédito atingem cerca de 53 milhões de pessoas. Para especialistas, a combinação entre acesso ao crédito e baixa educação financeira tem tornado o endividamento um problema recorrente, impactando diretamente o consumo.
Os efeitos são mais evidentes em segmentos ligados ao consumo não essencial, como moda, beleza, bares, restaurantes, turismo e eletrodomésticos. Nesses casos, a redução do poder de compra aparece de forma imediata.
Em uma loja de roupas, por exemplo, isso se reflete quando o cliente deixa de levar o conjunto completo e passa a comprar apenas uma peça em oferta. Já negócios voltados para manutenção, reparo e conveniência tendem a sofrer menos e, em alguns casos, até ganhar espaço.
Na avaliação de George Gustavo, o endividamento já se consolidou como um desafio estrutural da economia, impulsionado pela expansão do crédito sem garantia e pela falta de educação financeira.
Necessidade de ajustes no negócio
Para enfrentar esse cenário, pequenos empreendedores precisam adaptar seus negócios ao bolso do cliente sem comprometer a margem de lucro. Entre as estratégias estão revisar o mix de produtos, criar versões de entrada, montar combos inteligentes, reforçar o fluxo de caixa e negociar melhor com fornecedores.
Separar as finanças pessoais das empresariais também é essencial. O Banco Central observa que muitos MEIs ainda movimentam o negócio pela conta de pessoa física, o que reduz a visibilidade financeira e pode se tornar uma barreira ao crédito.
“O Sebrae oferece consultorias em gestão de fluxo de caixa, capital de giro, planejamento financeiro e compras/estoques. Um salão de beleza, por exemplo, pode trocar pacotes caros por planos mensais mais acessíveis, que cabem melhor no orçamento e mantêm a recorrência”, explica o gestor do Conexão Financeira.
Entre os erros mais comuns que agravam a situação estão misturar finanças pessoais e empresariais, comprar estoque sem planejamento, reduzir preços sem conhecer os custos, usar crédito caro para cobrir déficits recorrentes e vender muito a prazo sem analisar o impacto nos recebíveis.
“Em um cenário de retração, isso se torna ainda mais perigoso, pois o empresário pode confundir faturamento com dinheiro disponível. Não por acaso, o Sebrae trabalha com ferramentas como Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), Balanço Patrimonial (BP), fluxo de caixa, ponto de equilíbrio, capital de giro e cálculo de preço de venda”, ressalta.
Para manter a fidelidade dos clientes, a recomendação é combinar empatia com responsabilidade. O consumidor endividado valoriza clareza, previsibilidade, preços mais acessíveis, propostas honestas e um atendimento eficiente.
“Em vez de pressionar para vender mais, o pequeno negócio precisa oferecer soluções compatíveis com a realidade do cliente. Uma academia de bairro, por exemplo, pode reter mais clientes com um plano básico bem estruturado do que insistindo em um pacote premium”, analisa.
Pilares do Conexão Financeira
O Programa Conexão Financeira do Sebrae Goiás atua em três pilares: educação e consultoria financeira, articulação institucional para fortalecer o ecossistema e orientação ao crédito com garantias via FAMPE.
A proposta é ajudar micro e pequenas empresas a desenvolverem uma relação mais saudável e estratégica com o dinheiro.
“A oportunidade não está no improviso, mas no reposicionamento. Ganham espaço os negócios que ajudam o cliente a economizar, reparar, manter ou resolver algo com rapidez”, conclui George Gustavo.




