SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em briga de marido e mulher, até onde se pode e se deve meter a colher? É a pergunta que o roteirista Lee Sung Jin faz na segunda temporada de “Treta”, agora transformada em antologia.
A ideia de falar sobre isso veio quando Sung Jin estava caminhando pela vizinhança onde vive e ouviu um casal no maior quebra-pau dentro de casa. Assaltado pela inspiração, ele sacou que aquele microdrama doméstico, limitado às paredes da residência e aos fofoqueiros do bairro escondia algo universal.
Estava decidido, então. Uma briga conjugal, banal na superfície, mas carregada de tensão, sustentaria a nova trama de “Treta”, que nasceu como minissérie em 2023, levou oito troféus do Emmy, e logo ganhou sinal verde da Netflix para continuar.
Nos episódios que chegam à plataforma nesta quinta-feira (16), a briga envolve mais gente do que a do primeiro round. Antes centrada em dois protagonistas furiosos, agora a confusão se espalha e parte de Lindsay e Josh, vividos por Carey Mulligan e Oscar Isaac, marido e mulher cujo casamento caiu no tédio e, após um dia ruim, acabam brigando feio.
Objetos voam, insultos são atirados e a agressão só não vai adiante porque eles percebem que estão sendo observados e filmados.
Do outro lado da janela estão Austin e Ashley, papéis de Charles Melton e Cailee Spaeny, recém-casados, na feixa dos vinte e poucos anos. Ambos pobretões, trabalham no clube de campo gerenciado por Josh, e vislumbram na gravação uma chance de mudar de vida. Por que não usá-la para chantagear o casal mais rico? O ponto é que Austin e Ashley logo percebem que valorizam coisas diferentes na vida.
A situação se complica com a chegada de uma bilionária coreana, que vai ao clube de campo acompanhada de uma jovem que se infiltra na vida do casal.
Sung Jin atribui o sucesso de “Treta” aos traumas da pandemia, que ensinou como discussões bobas podem tomar proporções horrorosas. Na primeira temporada, uma briga de trânsito vira guerra de identidades. Mas o fascínio foi além, diz o autor, porque a trama reflete como perdemos de vez o senso de comunidade. “Estamos desconectados e, por isso, esse tipo de sentimento, a raiva, ficou tão potente.”
“Treta” ainda insiste em achar graça na desgraça. É um thriller que provoca risos de nervoso alimentados pela indignação diante de personagens que oscilam entre ganância, arrogância e mau-caratismo. “Eu temia que as reviravoltas da trama soassem exageradas, mas leio as manchetes nos jornais e vejo que o mundo está inacreditável mesmo”, diz Sung Jin.
Mais que antes, a nova temporada se delicia com os excessos de gente super-rica. Ambientada no clube de campo de luxo, a trama examina os embates quase sempre mesquinhos entre a classe média e os milionários.
Há uma certa autocrítica nisso, afirmam os protagonistas e produtores Oscar Isaac e Carey Mulligan, atores consagrados que são eles próprios inseridos nesse universo. “Sung Jin cutuca isso de propósito. Não só a ganância financeira, mas a ganância por amor, aceitação, validação”, diz Isaac.
Exemplo é seu personagem, que, solitário e em busca de tesão, se masturba, se arrepende e diz que não vai mais fazer aquilo, mas repete no dia seguinte.
Josh encarna o desejo por ascensão. Mesmo já confortável na vida, ele quer dar golpes em gente ainda mais endinheirada, como a senhora Jack, potencial nova presidente do clube. E, embora aparente ter tudo, a bilionária é igualmente insaciável. Não por dinheiro, mas por afeto.
Interpretada pela sul-coreana Youn Yuh Jung, Jack também encara sérios problemas no relacionamento seu marido é o doutor Kim, vivido por Song Kang Ho, de “Parasita”, e usa seu poder e influência para tentar remendar o casamento.
A vontade de zombar da elite coreana veio quando Sung Jin ganhou acesso VIP às rodinhas mais restritas da Coreia do Sul, onde ele viveu parte da juventude. “Conheci executivos e jantei com celebridades. Fiquei fascinado e tentado.”
Os novos episódios retomam esse tema caro ao autor a relação entre Estados Unidos e Coreia do Sul. Se a temporada de estreia enfocava a diáspora, agora a série explora identidades híbridas, como a de Austin, personagem de Charles Melton, que é meio sul-coreano, meio americano.
A série demorou três anos para voltar ao ar por causa de uma treta da vida real, diz Sung Jin, a greve dos roteiristas, que aconteceu logo após a estreia. Prestes a receber sinal verde da Netflix para escrever a nova parte, o autor suava frio pensando em que história queria contar desta vez. A resposta, para sua sorte, estava logo ali, uma treta na qual ele meteu bem mais que só uma colher.
TRETA – 2ª TEMPORADA
– Quando Estreia nesta quinta-feira (16)
– Elenco Carey Mulligan, Charles Melton e Oscar Isaac
– Produção EUA, 2026
– Onde ver Netflix
– Criação Lee Sung Jin

