Documentos apontam viagens de jatinho entre Portugal e França em 2025; senador afirma que mantém relação de amizade com o empresário
Uma investigação da Polícia Federal (PF) identificou registros de voos em jatos executivos utilizados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, com despesas pagas por uma empresa ligada ao advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de envolvimento em um esquema de movimentação de recursos relacionados a fraudes contra beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Os deslocamentos ocorreram em 2025, durante viagens entre Portugal e França. Os documentos encontrados pela PF indicam que a contratação dos voos foi realizada pela Cathedral Holdings S.A., empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, que possui vínculos societários com a Rede Loto, companhia do setor de apostas on-line.
Willer Tomaz é um dos sócios ligados aos negócios. Ele e Flávio Bolsonaro afirmam que mantêm uma relação de amizade e negam irregularidades relacionadas às viagens.
Documentos apontam três trechos de voos na Europa
De acordo com os registros reunidos pela Polícia Federal, pelo menos três trechos de viagens em aeronaves executivas foram contratados para Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz por meio da Cathedral.
Um dos deslocamentos ocorreu em 11 de abril de 2025, quando os dois viajaram de Lisboa, em Portugal, para Nice, no sul da França. O voo foi contratado junto à NetJets, empresa especializada em aviação executiva.
Em 23 de maio do mesmo ano, eles voltaram a viajar, dessa vez acompanhados de familiares. O grupo partiu de Cascais, cidade situada nas proximidades de Lisboa, com destino a Nice. Na sequência, embarcou em outra aeronave com destino a Paris.
Os registros dos trajetos foram encontrados em documentos armazenados no computador do advogado. A investigação busca esclarecer as relações financeiras e empresariais envolvendo pessoas e companhias citadas no caso.
Até o momento, as informações divulgadas sobre os voos não demonstram, por si só, que os recursos utilizados para pagar as viagens tenham origem nos desvios investigados no INSS.
Defesa afirma que viagens foram passeios entre amigos
Em manifestação sobre o caso, a defesa de Willer Tomaz afirmou que as despesas foram custeadas pessoalmente pelo advogado, e não pela empresa de apostas.
Segundo a nota, os deslocamentos tiveram caráter particular e ocorreram entre amigos e familiares, sem qualquer contrapartida.
O advogado também rejeitou tentativas de associar seu nome a práticas ilícitas e afirmou que a estrutura societária da Rede Loto não inclui pessoas investigadas por envolvimento com jogos ilegais.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, declarou que sua relação com Willer é exclusivamente de amizade. O senador contestou a associação entre os encontros pessoais e possíveis irregularidades, classificando essa interpretação como uma suposição sem fundamento nos fatos.
Empresa ligada à Rede Loto foi registrada em Portugal
A Cathedral Holdings S.A. foi constituída em Portugal em janeiro de 2023 e tem entre seus acionistas Willer Tomaz, familiares dele e o empresário Jorge Barbosa Dias.
A companhia é a única acionista da Rede Loto, empresa brasileira que opera no mercado de apostas on-line sob a marca BestBet.
Em fevereiro de 2023, a Rede Loto foi registrada na Junta Comercial de São Paulo. Meses depois, em maio daquele ano, recebeu autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para atuar no mercado de apostas, tornando-se a primeira empresa a obter uma licença desse tipo no país, segundo os registros citados na investigação.
Na época, a regulamentação estadual não exigia a identificação dos beneficiários finais nos mesmos moldes adotados posteriormente pelas regras federais. Por isso, a documentação apresentada no processo de licenciamento não detalhava os acionistas da empresa portuguesa.
A rapidez da tramitação chegou a ser questionada por uma companhia concorrente, que apresentou um pedido de impugnação. A contestação, contudo, não foi analisada.
Procurada, a Loterj afirmou que a Rede Loto apresentou os documentos exigidos pelo edital e que não havia impedimentos legais identificados entre os envolvidos no procedimento.
Investigação envolve suspeitas de fraudes no INSS
Willer Tomaz é investigado pela Polícia Federal no âmbito das apurações sobre suspeitas de desvios de recursos relacionados a descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS.
A investigação busca esclarecer possíveis transferências financeiras e a participação de pessoas e empresas na movimentação de valores suspeitos. A condição de investigado, porém, não significa que haja condenação criminal.
Jorge Barbosa Dias, outro empresário ligado à estrutura societária da Cathedral, respondeu a um processo por suspeitas de jogo ilegal e lavagem de dinheiro. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, ele foi absolvido em 2023.
A apuração sobre os voos de Flávio Bolsonaro integra um conjunto de documentos analisados pela PF para esclarecer relações empresariais e financeiras envolvendo o advogado e pessoas próximas ao senador.
Até o momento, Flávio Bolsonaro nega irregularidades e sustenta que os deslocamentos ocorreram no contexto de sua amizade com Willer Tomaz. A investigação deverá avançar na análise dos documentos e das conexões identificadas pelos investigadores.








