Estudo do Insper estima impactos econômicos e sociais do programa a partir do aumento da permanência de jovens de baixa renda na escola
O programa Pé-de-Meia pode contribuir para que aproximadamente 372 mil jovens a mais concluam o ensino médio por ano no Brasil. A estimativa faz parte de um estudo elaborado por pesquisadores do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, que calcula em R$ 184,6 bilhões o benefício econômico e social associado a essas conclusões adicionais ao longo da vida dos estudantes.
O levantamento foi realizado pelos economistas Daniel Duque e Michael França e considera os efeitos da política sobre a permanência escolar de jovens de baixa renda. O estudo ainda será submetido à revisão por pares.
O valor estimado corresponde a cerca de 15 vezes o custo anual do programa, calculado em aproximadamente R$ 12 bilhões. Os pesquisadores, no entanto, ressaltam que essa comparação não significa que o governo receberá R$ 184,6 bilhões diretamente ou que haverá um retorno financeiro imediato. O cálculo representa uma projeção dos ganhos acumulados ao longo da vida dos jovens que, em razão do programa, poderão concluir a educação básica.
Estudo considera milhões de jovens de baixa renda
Para realizar a estimativa, os pesquisadores analisaram cerca de 15,87 milhões de jovens entre 15 e 24 anos inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal.
A partir dos efeitos estimados do Pé-de-Meia sobre a permanência escolar e da probabilidade de progressão até a conclusão do ensino médio, o estudo calcula que cerca de 372 mil jovens adicionais poderão terminar essa etapa da educação por ano.
Desse total, aproximadamente 145,6 mil estão na faixa entre 15 e 19 anos. Outros 226,1 mil têm entre 20 e 24 anos.
A diferença entre os grupos também influencia o cálculo financeiro feito pelos pesquisadores, já que a conclusão mais tardia dos estudos recebe uma ponderação menor na estimativa.
De onde vêm os R$ 184,6 bilhões
O estudo atribui um valor econômico à conclusão do ensino médio com base em impactos que podem se estender durante toda a vida do estudante.
Entre os fatores considerados estão o aumento potencial da renda, ganhos de produtividade, maior longevidade, qualidade de vida e redução de fatores relacionados à violência.
Para os jovens de 15 a 19 anos, cada conclusão adicional do ensino médio foi estimada em aproximadamente R$ 537,2 mil, em valores de 2025. Com 145,6 mil conclusões projetadas nessa faixa etária, o benefício estimado chega a R$ 78,2 bilhões.
Entre os jovens de 20 a 24 anos, o valor atribuído a cada conclusão é de aproximadamente R$ 470,7 mil. As 226,1 mil conclusões estimadas nesse grupo representam cerca de R$ 106,4 bilhões.
Somados, os dois valores chegam aos R$ 184,6 bilhões projetados pelo estudo.
Benefício não representa arrecadação imediata
Os pesquisadores fazem uma ressalva importante sobre a interpretação dos números.
Os R$ 184,6 bilhões não correspondem a uma receita adicional que entrará nos cofres públicos nem a um valor que será recuperado pelo governo em determinado período. Trata-se do valor presente estimado dos benefícios econômicos e sociais relacionados às conclusões adicionais do ensino médio ao longo da vida dos estudantes.
A comparação com o custo anual de aproximadamente R$ 12 bilhões serve para dimensionar o potencial econômico da política, mas os benefícios calculados se distribuem por muitos anos.
O levantamento também utiliza premissas consideradas conservadoras. Os pesquisadores não assumem que todos os estudantes que permanecerem na escola necessariamente chegarão à formatura. Para isso, foram consideradas taxas de progressão observadas em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua).
Além disso, a estimativa não inclui possíveis efeitos adicionais do programa, como redução de reprovações ou eventuais melhorias na aprendizagem.
Programa busca reduzir abandono escolar
Criado pelo governo federal em 2024, o Pé-de-Meia foi estruturado para estimular a permanência de estudantes de baixa renda no ensino médio público.
A política oferece incentivos financeiros vinculados à matrícula, à frequência e à conclusão das etapas escolares. O objetivo é reduzir a evasão e criar condições para que jovens permaneçam estudando em vez de deixarem a escola para trabalhar ou contribuir com a renda familiar.
O programa também prevê uma poupança que pode ser acessada após a conclusão do ensino médio, além de pagamentos relacionados à participação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Impacto vai além da escola
Na avaliação dos pesquisadores, os efeitos de uma política desse tipo não devem ser medidos apenas pelo número de estudantes que recebem os pagamentos.
A conclusão do ensino médio pode aumentar as oportunidades de inserção no mercado de trabalho, elevar a renda ao longo da vida e produzir efeitos econômicos para a sociedade.
O estudo considera justamente esses impactos de longo prazo ao calcular o valor das conclusões adicionais proporcionadas pelo programa.
Uma análise anterior dos mesmos pesquisadores já havia apontado efeitos do Pé-de-Meia sobre a permanência escolar entre jovens de famílias vulneráveis. A nova pesquisa amplia essa avaliação ao estimar quantos desses estudantes poderiam efetivamente chegar à conclusão do ensino médio e qual seria o impacto econômico associado a esse resultado.
Estudo ainda será revisado
Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores destacam que a pesquisa ainda passará por revisão por pares. Portanto, as estimativas devem ser interpretadas como projeções baseadas nas evidências e premissas utilizadas no levantamento.
Ainda assim, os números apontam para um possível efeito de longo prazo do Pé-de-Meia: além de combater o abandono escolar, o programa pode contribuir para aumentar o número de jovens que concluem o ensino médio e, consequentemente, ampliar oportunidades de renda e produtividade ao longo da vida.
A estimativa de R$ 184,6 bilhões representa, portanto, o potencial econômico e social associado às conclusões adicionais projetadas, enquanto o impacto efetivo da política dependerá da evolução dos estudantes beneficiados e dos resultados observados ao longo dos próximos anos.








