Da Redação

O brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica, relata em um novo livro os bastidores das articulações ocorridas após a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 e como integrantes das Forças Armadas se posicionaram contra uma tentativa de ruptura institucional.

A obra, intitulada Eu disse NÃO – Uma Trincheira Antigolpista, publicada pela Editora Autêntica, tem 240 páginas e apresenta a versão do militar sobre os episódios que marcaram os últimos meses do governo Bolsonaro. Baptista Junior afirma que manteve uma posição contrária às iniciativas que poderiam resultar na quebra da ordem democrática.

O brigadeiro atuou ao lado do então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, em um momento de forte pressão sobre os comandantes militares. Segundo relatos apresentados no livro, os dois não aceitaram participar das articulações que buscavam impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, eleito presidente em outubro de 2022.

Pressão de Bolsonaro

Um dos episódios destacados envolve uma reunião realizada no Palácio da Alvorada depois da derrota eleitoral de Bolsonaro. De acordo com o relato atribuído a Baptista Junior, o então presidente teria feito uma cobrança direta ao comandante da Aeronáutica, utilizando uma metáfora relacionada a cartões disciplinares.

Na ocasião, Bolsonaro teria dito ao brigadeiro: “Já te dei dois cartões amarelos”. A frase foi interpretada como uma ameaça e uma tentativa de pressioná-lo a aderir às iniciativas defendidas pelo presidente.

O episódio é apontado como um dos indícios de que Bolsonaro buscava o apoio dos comandantes das Forças Armadas para avançar em uma estratégia destinada a contestar o resultado das eleições e dificultar a posse de Lula.

Reuniões entre os comandantes

Segundo o livro, as conversas entre os principais integrantes da cúpula militar se intensificaram depois da derrota de Bolsonaro. Baptista Junior relata encontros frequentes entre ele, Freire Gomes, o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, e o então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio de Oliveira.

O grupo passou a ser chamado de “grupo dos quatro” e acompanhou de perto a crise política instalada no país durante o período de transição entre os governos.

A posição dos comandantes do Exército e da Aeronáutica foi considerada decisiva para impedir que as articulações avançassem. Os dois militares teriam deixado claro que não apoiariam qualquer medida destinada a romper a ordem constitucional.

Resistência dentro das Forças Armadas

A atuação de Baptista Junior e Freire Gomes ganhou relevância porque uma eventual tentativa de ruptura dependeria do apoio de setores militares. Sem a adesão das principais estruturas das Forças Armadas, a possibilidade de uma intervenção institucional teria encontrado obstáculos significativos.

O brigadeiro sustenta, em seu livro, que sua decisão foi baseada no compromisso com a Constituição e com a preservação das instituições democráticas.

A postura também contrasta com a do comando da Marinha, cujo titular na época, Almir Garnier, aparece nos relatos sobre as reuniões realizadas no período. A obra de Baptista Junior busca reconstruir esse processo a partir da perspectiva de quem ocupava o comando da Aeronáutica.

Tradição de participação militar em rupturas políticas

O episódio também é contextualizado pelo histórico de participação das Forças Armadas em momentos de ruptura política no Brasil.

A Proclamação da República, em 1889, contou com participação decisiva dos militares. Décadas depois, integrantes das Forças Armadas estiveram envolvidos nas mudanças políticas de 1930 e 1937. Em 1964, militares participaram diretamente do movimento que derrubou o presidente João Goulart e deu início à ditadura militar, que permaneceu no poder até 1985.

Nesse contexto histórico, a resistência apresentada por comandantes militares em 2022 é apontada como um elemento relevante para compreender por que as articulações daquele período não avançaram.

Posse de Lula foi preservada

A recusa de Baptista Junior e Freire Gomes em aderir às iniciativas golpistas contribuiu para preservar o processo de transição presidencial. Lula tomou posse em 1º de janeiro de 2023, conforme previsto pelo resultado das eleições.

O relato do brigadeiro acrescenta novos detalhes ao debate sobre as movimentações realizadas nos bastidores do governo Bolsonaro após a derrota eleitoral. A obra também reforça a importância da posição adotada por integrantes da cúpula das Forças Armadas diante das pressões políticas daquele momento.

O livro Eu disse NÃO – Uma Trincheira Antigolpista apresenta, portanto, a visão de um dos principais personagens militares daquele período e procura registrar os acontecimentos sob a perspectiva de quem participou diretamente das reuniões e decisões tomadas nos últimos meses de 2022.