SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quase uma década após o anúncio da substituição do antigo muro de alvenaria por painéis transparentes, a USP (Universidade de São Paulo) ainda patina para dar uma solução definitiva ao cercamento da sua Raia Olímpica, paralela à marginal Pinheiros, no Butantã (zona oeste).
A Folha de S.Paulo esteve no local nos dias 20 e 23 de julho e constatou a visível dificuldade de avanço da mais recente tentativa de criar uma barreira segura sem custos excessivamente altos e que não prejudique a fauna aves já morreram ao colidir com as vidraças.
Treliças de bambu foram instaladas sobre painéis remanescentes, que receberam adesivos de película plástica escura. O esqueleto de madeira também recobre grades metálicas. Aos poucos, o gradil vai substituindo vidraças que se rompem pela trepidação causada pelo tráfego pesado e até com tiros de arma de fogo disparados a partir de veículos, segundo funcionários da instituição.
Na atual proposta, a trama de caniços deve receber uma cobertura de trepadeiras. Sua função é ser uma barreira perceptível para os pássaros. É também alternativa mais barata do que cobrir os painéis que ainda existem ao longo dos 2,2 quilômetros da extensão do canal de regatas.
Um servidor que tem acesso a detalhes da manutenção afirmou que o custo da substituição de cada folha de vidro é de aproximadamente R$ 4.000 e que a troca por grades também é onerosa.
Para viabilizar a substituição parcial dos vidros e implantar o paisagismo, a universidade desembolsou mais de R$ 3 milhões de recursos próprios entre 2022 e 2026.
Enquanto as plantas não crescem, a cerca com materiais alternados tem aspecto de improviso e degradação.
A construção da barreira vegetal foi anunciada ainda em 2022. Em julho do ano passado, a universidade comunicou a demolição do último trecho do muro para a consolidação do corredor verde. Mas o jardim, assim como ocorreu com a vidraça, enfrenta furtos e vandalismo.
Enquanto os painéis de vidro atraem interessados em arrancar seus perfis de alumínio, os jardins são alvo de pessoas que retiram suas plantas. Um funcionário da administração da universidade relatou que, no Dia das Mães, diversos motoristas pararam seus carros na via expressa para apanhar bromélias.
A poluição do ar e os ventos também prejudicam a manutenção da área ajardinada, afirmou a prefeitura do campus da USP, em nota. A gestão informou, no entanto, que intensificou as ações de recuperação nos últimos quatro meses para garantir que a área cumpra sua função ambiental. O projeto prevê o uso de espécies nativas da mata atlântica e do cerrado, além do monitoramento contínuo da fauna.
Ao percorrer o local, a Folha de S.Paulo observou jardins recentemente plantados em alguns trechos. No local, um funcionário relatou que há poucos dias uma empresa terceirizada retomou os serviços de paisagismo.
O cercamento da Raia Olímpica é alvo de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público de São Paulo contra a universidade. No final de maio, a Justiça intimou a USP a apresentar, em 30 dias, um relatório sobre o cumprimento integral da instalação dos jardins e das tramas de bambu devidamente cobertas com trepadeiras. Movimentações processuais desta semana apontam que a Justiça aceitou um pedido dos advogados da instituição para ampliar o prazo.
O imbróglio teve início em 2017, quando o então prefeito João Doria anunciou a troca do muro de concreto por 1,3 km de painéis de vidro, sob o argumento de integrar a Cidade Universitária à capital. A obra, acordada com a direção, foi orçada em mais de R$ 15 milhões, custeados inicialmente por doações de empresas.
O projeto, contudo, falhou rapidamente. Menos de duas semanas após a inauguração dos primeiros 500 metros, em abril de 2018, as placas começaram a trincar.
Os erros técnicos evidentes levaram o Ministério Público a intervir no caso. Empresas doadoras e prefeitura se afastaram, e a questão só foi pacificada quando a USP assumiu o fracasso do modelo de vidro, passou a arcar integralmente com os custos e propôs o corredor verde.
Servidores ligados à gestão do campus se queixam de que a USP aceitou o projeto original a contragosto, tendo sido forçada a engolir uma decisão política. A instituição é uma autarquia vinculada ao governo estadual, na época ocupado pelo atual vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Na ocasião, Doria e Alckmin eram do PSDB.
Idealizador do projeto e responsável pela articulação política que resultou no envidraçamento, Doria não quis comentar o caso ao ser procurado pela reportagem.
A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), à qual a USP é vinculada, informou que não comentaria porque a universidade possui autonomia orçamentária e financeira para gerir seus próprios projetos.



