SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Quando lançou “Povo de Deus – Quem São os Evangélicos e Por Que Eles Importam”, em 2020, o antropólogo e colunista da Folha Juliano Spyer precisava convencer um leitor específico a olhar com menos desconfiança e preconceito para uma fé cada vez mais popular nas periferias. Não por acaso chamou Caetano Veloso para assinar o prefácio.

“Era um livro escrito para o leitor progressista, com diploma superior, que em geral não quer saber de evangélico ou fica assustado quando o assunto é religião e política”, diz. “A apresentação do Caetano servia para esse leitor me dar uma chance ao encontrar o livro na prateleira da livraria.”

A estratégia funcionou, e “O Povo de Deus” chegou às mãos até de Lula (PT). Seis anos depois, Spyer quer atingir também outro interlocutor. Em “O Brasil dos Evangélicos: O Que o Crescimento Pentecostal Significa para o País”, da Planeta e que chega às lojas nesta semana, o prefácio é do bispo Abner Ferreira, presidente de uma das alas mais poderosas da Assembleia de Deus no Brasil, o Ministério Madureira.

É um nome de credenciais conservadoras, escolhido para sinalizar aos crentes que eles também são destinatários do título. “Abner é um líder que esse leitor respeita. E o leitor que não é evangélico verá uma liderança importante escrevendo um prefácio não religioso sobre uma obra de ciência social. Isso já mostra o tipo de conversa que o livro propõe.”

A troca de padrinhos sintetiza a própria trajetória do antropólogo. Desde que publicou “Povo de Deus”, fruto de uma pesquisa de campo numa periferia de Salvador “sem banco nem agência do Correio”, Spyer deixou de ser apenas o pesquisador que explicava o “pentecostalismo popular” para um público leigo.

Escrevendo sobre o segmento para o jornal desde 2022, seu repertório expandiu um bocado, diz. Ele conta que passou a conviver com pastores de igrejas históricas, neopentecostais, churches e também teólogos com posições políticas muito diferentes entre si.

Spyer diz que o argumento central se mantém. “Igrejas são hubs de empreendedorismo, escolas, centros cívicos. O pentecostalismo ampliou as possibilidades de atuação da mulher em comunidades onde essas possibilidades eram poucas”, afirma.

Entender isso, segundo ele, “não significa passar pano”, e sim “parar de tratar o evangélico como coitadinho manipulado”, uma forma de desprezo. “Quando a gente não entende quem o evangélico é, o efeito prático é empurrá-lo para o extremo oposto.” O bolsonarismo agradece.

O autor continua sustentando que parte expressiva da elite intelectual brasileira insiste em olhar para o universo evangélico através de caricaturas. Em vez de enxergar igrejas como instituições complexas, capazes de produzir redes de solidariedade e mobilidade social, prefere tratá-las como máquinas de manipulação política.

Um dos conceitos apresentados no livro resume essa crítica. Inspirado no “mansplaining”, termo em inglês usado para descrever homens que explicam assuntos às mulheres de forma condescendente, Spyer fala em “ateusplaining”. A expressão foi criada pelo pastor Alexandre Gonçalves, fundador do movimento Cristãos Trabalhistas no PDT e policial rodoviário federal, para se referir à postura da pessoa que não frequenta igreja nem vive a experiência religiosa, mas se sente autorizada a ensinar como um fiel deveria interpretar a própria fé.

Segundo o antropólogo, esse comportamento ajuda a explicar por que a esquerda, sobretudo a que emerge das universidades, pena para dialogar com o evangélico.

“Uma amiga pentecostal, professora, que vive modestamente com o marido e uma filha pequena, me disse uma vez: ‘Eu quero dar o que existe de melhor para a minha filha. Mas o que realmente quero é que ela vá para o céu’. Sinto que a geração que comanda o PT, e intelectuais de modo amplo, hoje não conseguem levar a sério alguém assim.”

Para Spyer, o problema não é apenas eleitoral, mas cultural. Por mais que deseje dialogar com esse fiel, fatia expressiva do campo progressista o vê como ingênuo por dar tanta importância à vida espiritual. “Algo que, pela perspectiva iluminista, é fantasia e mistificação. E aí o diálogo já começa quebrado, porque você não dialoga de verdade com alguém que considera infantil.”

Sua crítica não ignora o peso político conquistado pelo grupo. O autor reconhece que o crescimento do evangelicalismo justifica o escrutínio sobre sua influência na sociedade.

“Existem motivos reais para essa antipatia”, afirma. “O protestantismo tem a segunda maior bancada do Congresso depois do agro, tem candidato presidencial, ministro do Supremo indicado por ser evangélico e pastor usando púlpito para declarar apoio a candidato.” Tudo isso merece atenção, diz.

O problema é quando a crítica à atuação política se mistura ao preconceito de classe. Spyer diz que, enquanto “o pobre brasileiro em geral se mostra submisso”, não dá para dizer o mesmo sobre o evangélico. “Essa recusa incomoda. E como ninguém pode atacar uma pessoa por ser pobre, o ataque vem pela religião. No fundo é preconceito de classe, mas chega embalado como crítica racional.”

Essa incompreensão, segundo ele, também ajuda a explicar o afastamento entre pentecostais e esquerda. Embora reconheça o impacto das políticas sociais implementadas pelos governos petistas, Spyer avalia que o partido perdeu capacidade de conversar com esse bloco religioso quando passou a ser identificado com pautas morais vistas como ameaças por muitos fiéis.

Ele argumenta que a comunicação importa tanto quanto o conteúdo. Cita como exemplo o debate sobre educação sexual nas escolas. “Se você fala sobre a importância das aulas de educação sexual para reduzir a gravidez na adolescência, tem mais chance de ser ouvido do que se o ponto de partida for dizer que a criança pode escolher se é menino ou menina. São enquadramentos diferentes, e um deles abre conversa enquanto o outro fecha.”

No livro, Spyer também revisita um conceito que desenvolveu a partir do trabalho de campo na Bahia: o dos “milagres sociológicos”. A ideia surgiu quando percebeu que um culto pentecostal funcionava, simultaneamente, como escola informal.

Chegou ali quase que por acaso. O plano inicial era estudar mídia, não cristianismo, num bairro da periferia soteropolitana. Ele conta que começou a frequentar uma igreja local depois de receber uma ameaça de morte por perguntar sobre ocupações ilegais.

Certo dia, parou de prestar atenção no que dizia o pastor e se deu conta de que ali também era uma sala de aula. “Tinha um instrutor na frente conduzindo a leitura, pedindo para as pessoas repetirem. Era uma aula de leitura e interpretação de textos. É milagre porque ali acontece uma multiplicação de leitores em um espaço que não tem essa finalidade. E é sociológico porque o resultado é mensurável: evangélicos leem mais do que a média dos brasileiros.”

Não que as igrejas devam ser idealizadas. Se Spyer aponta pesquisas que mostram redução do consumo de álcool e da violência doméstica entre homens convertidos, faz questão de distinguir esse processo da persistência do machismo. “A mulher e a família deixam de ser abusados por conta da embriaguez, mas isso não significa que ele deixa de ser machista. Outras formas de violência continuam.”

Para ele, porém, mudanças internas já estão em curso. Cita a repercussão da pregação da pastora Helena Raquel no congresso Gideões Missionários da Última Hora. Num ambiente conservador, ela defendeu que igrejas não silenciem diante de violência doméstica e pedofilia.