SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – George Orwell escreveu “A Revolução dos Bichos” há mais de 80 anos para falar sobre poder, autoritarismo e corrupção. Desde então, a fábula política atravessou gerações em livros, salas de aula e adaptações para o cinema.

Agora, a história ganha uma nova roupagem: uma audiossérie com tratamento cinematográfico, dezenas de atores e sotaques de todas as regiões do Brasil, apostando no poder da voz para conquistar também quem já trocou parte do tempo de leitura pelos fones de ouvido.

A produção, da Audible, estreia em 23 de julho, durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), e ficará disponível gratuitamente por três meses. Gaby Amarantos assume a narração da história, enquanto Matheus Nachtergaele vive o sábio Major, Mateus Solano interpreta o ambicioso Napoleão e Adanilo dá voz ao personagem Bola de Neve.

Para Gaby, o convite representou uma oportunidade de experimentar um território completamente novo na carreira. Acostumada aos palcos, à televisão e ao cinema, ela diz que mergulhou na experiência justamente pelo desafio.

“Eu fiquei muito feliz com a euforia que a insegurança me dá de fazer uma coisa muito nova. Foi um projeto muito desafiador e também de muita descoberta. Pensei: ‘Caramba, eu também consigo fazer isso’. Adoro sair da zona de conforto”, afirma.

Segundo a cantora, a produção também chamou atenção pela liberdade artística oferecida durante as gravações. Ela conta que tentou levar para a narrativa características da própria identidade, incluindo o sotaque paraense e elementos da musicalidade que marcaram sua trajetória.

“Eu amo literatura e gosto muito do poder da voz. Poder usar esse instrumento para contar uma história foi uma delícia. A equipe me deu muita liberdade para colocar meu jeito de falar, minhas referências, meu tempero. Acho bonito ver esse olhar para a brasilidade, ouvir tantos sotaques diferentes e perceber como isso aproxima as pessoas da história.”

Na visão de Gaby, esse formato também pode servir como porta de entrada para novos leitores em um momento em que a atenção disputa espaço com celulares e redes sociais. “A gente vive um momento de tanta tela que as pessoas têm dificuldade de parar para ler. Acho que o audiolivro pode ajudar muita gente a se reconectar com a literatura.”

Quem também celebrou o projeto foi Matheus Nachtergaele. O ator interpreta o responsável por dar início à revolução dos animais e diz que aceitou o convite imediatamente por enxergar na obra um dos grandes clássicos da literatura política.

“É uma fábula de formação política que atravessa décadas com uma força incrível. Recebi esse convite com alegria, vontade e muito desejo de participar. O Major é um personagem delicioso, um porco velho, sábio, que semeia ideias bonitas e depois acompanha o destino delas nas mãos de outros.”

Nachtergaele afirma que a adaptação preserva a essência do livro ao mesmo tempo em que ganha identidade brasileira graças ao elenco formado por artistas de diferentes regiões.

“Foi uma oportunidade de abrasileirar essa fábula com um elenco cheio de sotaques diferentes. Orwell escreveu uma história atemporal sobre como boas ideias podem ser corrompidas quando o poder muda de mãos. Isso continua extremamente atual.”

Durante a gravação, o ator diz que mergulhou completamente no personagem. “Eu imaginava aquele porco grandão, cansado, bonachão. Enquanto gravava, fazia gestos, movimentos, incorporava o personagem inteiro. Quem estava assistindo dava risada porque eu realmente virei um porco dentro do estúdio.”

Mateus Solano também retorna ao universo de George Orwell após participar da adaptação em áudio de “1984”. Desta vez, ele dá voz ao antagonista Napoleão e afirma que o projeto amplia o alcance da literatura.

“É um clássico. Fiquei muito feliz de voltar ao universo do Orwell e experimentar novamente esse formato. Acho que a Audible cria uma oportunidade para que muito mais gente tenha acesso a uma obra tão importante.”

O ator acredita que o crescimento dos audiolivros acompanha uma mudança de comportamento do público, mas faz uma ressalva: eles devem despertar o interesse pelos livros, e não substituí-los.

“Espero que esse tipo de produção não substitua a leitura”, observa. “Ler continua sendo uma experiência única. Mas o audiolivro pode funcionar como um convite para conhecer mais autores, mais histórias e despertar esse desejo pela literatura.”

Para Nachtergaele, a força do áudio está justamente naquilo que ele não mostra. “Quando você escuta uma história, ainda existe muito espaço para imaginar. Você ouve a voz, mas precisa pintar as cenas dentro da própria cabeça”, destaca. “Acho bonito porque a imaginação continua trabalhando.”