SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Luiz Zerbini concebeu paisagens que parecem fruto de um devaneio. As telas deixam de lado o compromisso com o realismo para valorizar a experimentação cromática. Troncos, folhas e galhos reluzem com tons saturados de azul, rosa e vermelho.

São cores que emprestam ares lisérgicos e dionisíacos aos cenários, convidando o observador a mergulhar numa experiência psicodélica. Observar esses quadros é como sentir a terra em transe.

Esse delírio pictórico pode ser visto nas salas expositivas do Instituto Tomie Ohtake, na capital paulista, onde está em cartaz a exposição “Estrelas Escolhidas”.

A mostra reúne cerca de 230 obras produzidas por meio da monotipia, técnica na qual o artista aplicou camadas de tinta em plantas, folhas e galhos. Em seguida, pressionou os materiais contra a superfície de papéis e tecidos, de modo a criar uma impressão.

“A gente descobriu que esse era um mundo para o Luiz e que ele fez esses trabalhos ao longo de dez anos”, diz Ana Roman, que assina a curadoria da exposição ao lado de Luiza Mello.

Para ela, Zerbini une a prática artística a um rigor quase científico. “Ele tenta entender diariamente como uma planta reage a um processo e, depois, de que forma ela responde a outro processo.”

É interessante refletir também sobre como a monotipia conseguiu perenizar elementos que estão fadados a desaparecer em razão da fragilidade, como as folhas de uma árvore.

“Tem um lugar meio ficcional que é pensar nesses trabalhos quase como fósseis”, diz Roman. Algumas das plantas, inclusive, liberam sua seiva durante a impressão. “Essas gravuras guardam DNA, vestígios e rastros.”

Zerbini começou a trabalhar com esse método em 2016, quando tentava fazer esculturas usando plantas como moldes. No entanto, o artista não conseguia obter êxito em razão de dificuldades técnicas.

Foi quando se aproximou da monotipia por influência de João Sánchez, impressor com quem firmou uma parceria para conceber as obras da exposição.

À época, o profissional mostrou ao pintor a possibilidade de trabalhar com plantas, mas usando essa forma de impressão. “Quando olhei a primeira imagem que ele me mostrou, entendi o potencial da técnica. Poderia fazer a maioria das folhas que existem no planeta”, diz o artista.

Desde o começo da carreira, Zerbini dialoga com temas socioambientais. “Apesar de fazer outras coisas, como obras abstratas e geométricas, o núcleo central do meu trabalho é a natureza.”

Isso ficou evidente em 2022, quando ele ganhou uma exposição no Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Na ocasião, o projeto reuniu pinturas em que o artista pôs em evidência os povos indígenas e reconstruiu grandes embates da história nacional.

“A questão da natureza é o que tem de mais importante na minha visão hoje em dia. E é claro que ela está atrelada a questões sociais”, diz o artista, para que é frustrante ver o país desperdiçar o poder de sua biodiversidade. “Se ela fosse utilizada de maneira inteligente, a gente seria a maior potência do mundo.”

Tal como fenômenos naturais, a monotipia é uma prática difícil de controlar. Isso acontece por não ser possível prever com segurança o resultado das impressões.

“Ela é feita de surpresas. Não tem o controle total, o que é a coisa mais difícil no trabalho de arte. É você se livrar de você mesmo”, diz Zerbini, acrescentando que incorpora imprevistos a seus trabalhos. “Procuro sempre alguma novidade, algum erro, algo que tire daquele lugar de conforto. A surpresa é muito viciante.”

O resultado dessa entrega ao imponderável são telas que mostram a silhueta de troncos, galhos, bambus e folhas de bananeiras. Ora as cores das imagens são quentes e intensas, ora são soturnas e melancólicas. Seja como for, os tons nunca passam despercebidos. “Eu sou um colorista por natureza.”

As tintas que ele usou para pintar as obras da exposição foram produzidas pelo próprio artista em seu ateliê, na zona sul do Rio de Janeiro. “Acho que isso deu uma intensidade maior à cor, porque a gente podia colocar a quantidade de pigmento que achava necessário.”

Além das cores, a presença de itens como folhas, latas e madeiras chama a atenção de quem visita a mostra. Foi nesses materiais que o artista aplicou tinta para fazer impressões sobre a superfície das telas.

Ao expor seus instrumentos de trabalho, Zerbini quis jogar luz sobre os bastidores da criação artística. “Muitas pessoas acham que mostrar o processo faz perder o mistério, como se isso desmistificasse a obra de arte.”

O artista, no entanto, considera produtivo romper com essa aura de mistério. “O fato de a pessoa se sentir próxima daquilo e achar que não existe nenhuma genialidade por trás é um sentimento muito bom.”

Com mais de quatro décadas de carreira, Zerbini é um dos expoentes da chamada geração 80. Esse grupo ajudou a devolver o calor e as cores ao circuito artístico após anos de austeridade da geometria abstrata e da arte conceitual.

A pedra fundamental do movimento de renovação foi lançada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, na zona sul do Rio. Foi lá que aconteceu a célebre exposição “Como Vai Você, Geração 80”, realizada em 1984.

O projeto se tornou um marco ao dar visibilidade a nomes que se tornariam referência anos mais tarde, como Leonilson, Beatriz Milhazes e o próprio Zerbini.

O pintor, no entanto, considera que a repercussão do grupo foi um pouco superestimada. “Todo mundo que me entrevista pergunta sobre a geração 80, sendo que não representa nada para mim.”

Ele compara a mítica em torno do grupo àquela da Semana de Arte Moderna, evento considerado outro ponto de inflexão na arte brasileira. “Às vezes, têm uns nomes que funcionam. Semana de 22 funcionou, apesar de não ter importância nenhuma. A geração 80 também tem uma presença enorme apesar de, como movimento, não ter importância nenhuma.”

ESTRELAS ESCOLHIDAS

– Quando Ter. a dom., das 11h às 19h. Até 16 de agosto

– Onde Instituto Tomie Ohtake – Av. Faria Lima, 201, Pinheiros

– Preço Gratuito