SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Parece fantasia e é mesmo. Quem olha para as empresas do Vale do Silício logo encontra referências a obras fantásticas em toda parte. Com objetos mágicos, narrativas épicas e conceitos de ficção científica, essas companhias recorrem à literatura especulativa para criar marcas corporativas, nomear produtos e batizar fundos de investimento, entre outras iniciativas.
Mais do que decisões aleatórias, muitas vezes tais escolhas revelam qual visão de mundo os empresários de tecnologia cultivam. E nelas, diga-se, os heróis costumam ser os empreendedores, dotados de objetos que tudo veem, armas que derrotam inimigos e veículos capazes de viagens interplanetárias.
As empresas de Peter Thiel são um exemplo. A Palantir, companhia da inteligência de dados aplicada a segurança e defesa, copia o nome de uma esfera mágica de “O Senhor do Anéis” que confere a seu dono o poder de ver e ouvir eventos distantes uma alegoria do que a empresa promete a seus clientes.
Os críticos do bilionário logo apontaram a ambiguidade. Na obra de J.R.R. Tolkien, os “palantíri” até permitem a seu dono enxergar longe, mas também o manipulam fazendo-o acreditar que vê a realidade, quando está vendo informações selecionadas. Esses críticos dizem que tais objetos podem até ser uma metáfora da vigilância total que o uso militarizado da IA poderia gerar.
De todo modo, as alusões a Tolkien estão em vários negócios do bilionário. Mithril Capital, um fundo de investimentos, remete ao metal precioso dos anões na obra do autor britânico. Valar Ventures, outro fundo criado por Thiel, usa o nomes dos seres divinos que criaram o mundo imaginário de Tolkien. Há até relatos de que, na Palantir, às vezes os funcionários são chamados de “hobbits”.
E “O Senhor dos Anéis” não está só no universo de Thiel. A empresa de tecnologia de defesa Anduril Industries foi buscar o nome da espada mítica do herói Aragorn, conhecida no romance como “a Chama do Ocidente”. Uma escolha que dialoga com a visão de mundo de seu fundador, Palmer Luckey, para quem a tecnologia deve servir ao fortalecimento militar dos Estados Unidos diante da percepção de que a ordem liderada pelo Ocidente está sob ameaça.
Luckey é apoiador de Donald Trump. E a Anduril se tornou um dos símbolos da guinada pró-defesa e nacionalista das empresas de tecnologia americanas.
As referências são tão comuns que as críticas também surgem como resposta. Um exemplo é o livro “Tolkien Contre Les Machines”, do comentarista político e ensaísta francês Sébastien Fontenelle. Ele sustenta que Tolkien deixou uma obra crítica da industrialização e da concentração de poder e na saga, os objetos de vigilância, como os “palantíri”, pertencem aos vilões.
Além disso, argumenta ele, o eixo moral de “O Senhor dos Anéis” não são os guerreiros conquistadores. São os hobbits, seres pequenos que cultivam seu jardim e não desejam poder.
Mas é a ficção científica, não a fantasia medieval, a principal fonte de referências das empresas de tecnologia. O que os CEOs tentam realizar, muitas vezes, foi sonhado antes na cabeça de um escritor.
O metaverso de Mark Zuckerberg, por exemplo, já tinha sido conceituado no romance “Snow Crash”, de Neal Stephenson (na trama, os personagens vivem em um mundo pós-apocalíptico e buscam uma vida melhor no universo digital).
Intercâmbios assim acompanham a trajetória desse gênero literário. O escritor e crítico cultural argentino Michel Nieva, hoje professor na Universidade de Nova York, mapeia criticamente essa história no ensaio “Ficção Científica Capitalista” (ed. Ubu), lançado há pouco no Brasil.
Nieva conta, por exemplo, como Júlio Verne povoou sua obra de máquinas imaginárias tão bem descritas que pareciam à espera de um engenheiro não à toa, o submarino Náutilus, do romance “Vinte Mil Léguas Submarinas”, influenciou a criação do submarino moderno, que tem propulsão e pode navegar grandes distâncias.
Para o ensaísta argentino, a ficção científica capitalista se sustenta no que ele vê como três mitos: a conquista de Marte, a imortalidade e a inteligência artificial geral.
Vários CEOs de tecnologia confessam sua paixão pelo gênero. Elon Musk já falou diversas vezes dessa influência. Em 2018, quando a SpaceX colocou o foguete Falcon em órbita, a espaçonave levava consigo uma cópia criptografada de “Fundação”, de Isaac Asimov. E o bilionário já prometeu que o primeiro foguete rumo a Marte vai se chamar Coração de Ouro, como a nave de um dos protagonistas de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams.
Em seu livro, Nieva diz que as empresas de tecnologia e o capitalismo em si buscam com esse tipo de referência construir não só uma estética, mas também utopias hiperfuturistas para combater o ceticismo de que são alvo. Ele lembra o conceito de “ideologia californiana”, cunhado pelos pesquisadores Richard Barbrook e Andy Cameron para definir a visão de mundo nascida na região que mistura o empreendedorismo e a contracultura dos anos 1960 (os hippies, aliás, eram grandes fãs de Tolkien).
“Esses romances [de ficção científica] tornam startups e produtos mais atraentes do ponto de vista financeiro. Eles se apoiam menos na tecnologia em si e mais na narrativa ao redor dela”, diz Nieva, para quem esse fenômeno ficou evidente com o IPO da SpaceX.
“O ativo mais importante do capitalismo contemporâneo não são as mercadorias em si, mas a capacidade de construir narrativas sobre o futuro. No caso da SpaceX, essa narrativa envolve a conquista de outros planetas, especialmente Marte, além de outros projetos associados, como X, Grok e Tesla, e a forma como todos esses produtos participam desse futuro.”
Para o autor, tais histórias servem ao marketing. Nieva lembra que Musk, depois de mobilizar a sociedade falando em colonizar Marte, disse em fevereiro deste ano que estava mudando o foco da empresa para construir primeiro uma cidade na Lua.
“Agora Musk afirma que Marte está muito distante e que o primeiro passo deve ser chegar à Lua. São futuros que funcionam apenas em termos de especulação financeira; não importa se algum dia serão concretizados ou não”, diz o autor.
AS REFERÊNCIAS POP DAS EMPRESAS TECNOLOGIA
Palantir
– Nome da empresa de inteligência de dados e defesa de Peter Thiel é o mesmo de esferas mágicas de “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien. Na trama, as “palantíri” permitem a seu dono ver e ouvir eventos distantes uma alegoria do que a empresa promete a seus clientes. Críticos dizem que também podem ser metáfora da vigilância total promovida pela tecnologia.
Valar Ventures
– Fundo de capital de risco que tem Thiel como um dos fundadores. Empresta o nome dos valar, seres divinos que criaram a universo imaginário de Tolkien, a Terra-Média.
Anduril Industries
– Empresa de tecnologia militar e inteligência artificial. Seu nome vem de Andúril, a espada do herói Aragorn em O Senhor dos Anéis, conhecida como “A Chama do Ocidente”. O fundador da empresa, Palmer Luckey, tornou-se um dos principais defensores da ideia de que o Vale do Silício deve voltar a investir em tecnologias militares para preservar a superioridade estratégica dos Estados Unidos diante de rivais como a China.
SpaceX
– Elon Musk, fundador da SpaceX, é um fã declarado de ficção científica. Em 2018, a empresa enviou em um foguete uma cópia criptografada de “Fundação”, de Isaac Asimov. E Musk já prometeu que o primeiro foguete rumo a Marte vai se chamar Coração de Ouro, como a nave de um dos protagonistas de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams.
Grok
– O nome do chatbot da xAI, de Musk, vem do romance “Um Estranho numa Terra Estranha”, de Robert A. Heinlein. Na narrativa, grok é uma palavra marciana que significa compreender algo de profunda e intuitiva, a ponto de tornar-se um com o objeto.
Metaverso
– Antes de ser promovido pela Meta, o metaverso já havia sido conceituado no romance “Snow Crash”, de Neal Stephenson (na trama, os personagens vivem em um mundo pós-apocalíptico e buscam uma vida melhor no universo digital). A ideia se tornou popular e chegou a inspirar outras histórias, como a trilogia de filmes “Matrix”.
Náutilus
– As influências da ficção científica no universo empresarial são antigas. O submarino fictício Nautilus, do romance “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Júlio Verne, inspirou a criação do submarino moderno com propulsão.



