SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A forma como a Polícia Militar tem tratado as denúncias anônimas que recebe em relação ao ataque ao tenente Ronickson Pimentel dos Santos, 39, tem atrapalhado o avanço da investigação sobre a motivação do crime, conforme a Polícia Civil.

Na avaliação feita por investigadores do caso à reportagem, as ações da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) que resultaram em mortes acabam impedindo a obtenção de depoimentos que poderiam ajudar a esclarecer o motivo do crime e a identificar todos os responsáveis.

De 29 de junho a 10 de julho, seis pessoas morreram em ações da Rota –pelo menos três delas eram alvo de denúncias que apontavam envolvimento direto no caso.

Segundo os boletins de ocorrência, os homicídios decorrentes de intervenção policial aconteceram durante ações para apurar denúncias anônimas sobre possíveis suspeitos. Tais denúncias não chegaram ao conhecimento da Polícia Civil.

Pimentel foi baleado na cabeça enquanto estava parado em um semáforo na avenida Goiás, principal via de São Caetano do Sul, no ABC, em 27 de junho. Ele permanece internado em estado grave no Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André.

A reportagem questionou a Secretaria da Segurança Pública sobre as mortes que a Rota cometeu e os efeitos sobre a investigação, mas não houve resposta ao email enviado na quinta-feira (16) e ao telefonema e a um segundo email nesta sexta-feira (17).

Nesta sexta, um suspeito de participação indireta se entregou à polícia e prestou depoimento.

A morte mais recente ligada ao caso foi a de Márcio dos Santos Ferreira, 45, conhecido como Tetão, baleado num imóvel na rua Tauro, no Jardim Iguatemi, zona leste da capital, na sexta-feira (10). A PM afirma que ele estaria ligado ao apoio logístico no ataque ao tenente.

Conforme o boletim de ocorrência registrado no 49º DP (São Mateus), PMs receberam denúncia anônima de que Tetão estaria envolvido no ataque ao tenente Pimentel e que estaria escondido em um imóvel. O documento menciona que houve confronto. O homem estaria com uma pistola. Ele morreu no Hospital Cidade Tiradentes, da prefeitura.

Marcelo de Jesus Dias, 37, o Nego Zoom, foi morto em uma ação de policiais militares na rua do Campo, em Heliópolis, na quinta-feira (9). Segundo a corporação, ele teria conduzido a moto usada pelo atirador –identificado pela polícia como Hércules da Costa Siqueira, o Golias, que continua foragido.

Conforme o boletim de ocorrência, policiais realizavam patrulhamento em busca de Zoom, que estaria escondido na região. Segundo a versão dos policiais, o homem atirou contra eles e houve o revide. Além de Zoom, outro homem foi ferido na ação. Ambos morreram no Hospital Heliópolis, gerido pelo estado.

Antes disso, a Rota havia matado Elenilson Misael da Silva, 47, o Galego, em Peruíbe, no litoral paulista, na quinta-feira (2). Ele teria atirado contra os PMs da Rota, que revidaram. Galego é apontado como uma das pessoas que ajudou Golias a fugir.

Três homens estão presos sob suspeita de participação indireta na tentativa de homicídio do policial. Dois deles teriam conduzido veículos de apoio à dupla que estava na motocicleta. O terceiro é apontado como responsável por abandonar a moto na região da favela de Heliópolis, na zona sul de São Paulo.

CÂMERAS CORPORAIS

Além das seis mortes na conta da Rota, outros seis homicídios cometidos por diferentes tropas da PM ocorreram após o ataque ao tenente Pimentel. Boa parte desses casos ocorreu na mesma região em que Tetão foi morto, ao longo das margens da avenida Jacu Pêssego, na zona leste.

Apesar da proximidade geográfica, não há outros elementos que conectem os casos à apuração do ataque ao tenente.

Em ao menos dois casos, os boletins de ocorrência indicam o uso incorreto de câmeras corporais, equipamento que poderia ajudar na redução da letalidade policial e na investigação por parte da Polícia Civil.

A reportagem também questionou a SSP sobre o tema, mas não houve resposta.

José Carlos da Rocha Sobrinho, 42, foi morto na segunda-feira (13) por policiais militares do Caep (Companhia de Ações Especiais de Polícia) no Jardim São Francisco, na zona leste.

Segundo os agentes, o homem teria apontado uma arma em direção à equipe, que reagiu. A família contesta essa versão, e diz que ele era pastor evangélico. Familiares e vizinhos do homem fizeram protestos pedindo justiça. Eles chegaram a bloquear vias da região.

Na delegacia, os policiais informaram que estavam com as câmeras, mas que elas só foram acionadas após os disparos.

Em outro caso na mesma área, na sexta-feira (10), dois homens morreram em ação de policiais da Força Tática, que afirmam ter sido alvo de disparos por parte deles.

“Durante a ação, a equipe da Polícia Militar utilizou câmeras corporais. A guarnição nos informou que, durante a ocorrência, elas estavam descarregadas, pois estavam no final do expediente”, diz trecho no boletim de ocorrência reservado para a Polícia Civil. “Mesmo assim, solicitaremos as imagens dessas câmeras ao batalhão”.

No caso de Nego Zoom, o policial militar responsável por registrar a ocorrência no DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) — órgão que investiga mortes causadas por policiais militares — relatou que os agentes da Rota usavam os equipamentos, mas que as imagens precisariam ser requisitadas para instruir o processo.

Ainda assim, no documento, o policial civil que o redigiu escreveu que seria possível a visualização das imagens no momento do registro.

A morte de Tetão foi registrada no 49º DP (São Mateus), e o boletim inicial não traz menção às câmeras corporais — o mesmo ocorre no documento sobre a morte de Galego, feito em Peruíbe.