SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Moradores e frequentadores do Jardim Paulistano, bairro nobre da zona oeste de São Paulo, se juntaram para ajudar um cachorro cujo dono, um homem em situação de rua, estava internado.

O que começou como uma corrente para resgatar o animal se transformou, em poucas semanas, em uma rede de apoio formada por pessoas que nunca haviam se encontrado e hoje tentam garantir atendimento e acolhimento ao tutor, conhecido na região como Pedro.

A mobilização começou no meio de junho, depois que frequentadores do local viram o cachorro sozinho e amarrado à carroça de Pedro na rua Grécia. Logo, foi criado um grupo de WhatsApp com moradores do bairro que conheciam a dupla e se preocuparam com o bem estar do animal.

Enquanto Pedro permanecia internado, voluntários conseguiram uma ONG para receber o animal temporariamente, arrecadaram dinheiro para custear sua hospedagem e passaram a acompanhar as atualizações dele via fotos e vídeos nas redes.

Assim que o cãozinho -que muitos chamam de Maduro, outros conhecem como Bob e mais tantos apelidam de Whisky- estava são e salvo, o grupo voltou sua atenção para cuidar do homem. Quando souberam que a carroça de Pedro poderia ser retirada da rua, organizaram outra força-tarefa para localizar e proteger os poucos pertences dele.

“Foi uma solidariedade absurda”, disse a moradora do bairro Gisella Halim, que conhecia Pedro havia anos por frequentar a região. Ela conta que costumava conversar com ele por causa do cachorro e já percebia que sua saúde vinha piorando. “Isso tudo é muito surpreendente porque estamos em São Paulo, onde ninguém olha na cara do outro, e todo mundo ficou muito solidário.”

Se resgatar o cachorro foi relativamente simples, ajudar o tutor tem se mostrado bem mais difícil. Depois de receber alta, Pedro chegou a ser encaminhado para um abrigo, mas acabou voltando às ruas.

Desde então, os integrantes do grupo tentam conseguir atendimento por meio da rede pública, procuram vagas em serviços de acolhimento e buscam convencê-lo a aceitar tratamento. O esforço, porém, esbarra em limitações do sistema e na dificuldade de atender pessoas que vivem nas ruas há anos.

“A gente tem encontrado muitos desafios para tirar uma pessoa da rua, inclusive desafios dados pelo próprio sistema”, afirmou Luiz Porto, um dos participantes da mobilização. “Percebemos que não existe estrutura suficiente para acolher essas pessoas e que, muitas vezes, elas também podem não querer receber auxílio.”

A história também abriu um debate entre os próprios voluntários. O cachorro permanece em uma ONG, onde vive solto e recebe cuidados constantes. Parte do grupo defende que ele volte ao tutor; outra acredita que o animal hoje tem uma qualidade de vida incompatível com o retorno às ruas.

Pedro foi consultado pelos moradores do bairro e chegou a concordar com uma possível adoção, mas se emociona sempre que fala do companheiro de quatro patas. Sem um desfecho definido, a rede de apoio segue ativa, arrecadando recursos para manter o cachorro na ONG e tentando encontrar um serviço que acolha Pedro.