SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar fechou em alta de 0,4% nesta quinta-feira (16), cotado a R$ 5,099, com investidores atentos aos desdobramentos da decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. A medida foi anunciada na noite da última quarta-feira (15) e encerra a investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, iniciada em julho do ano passado. As tarifas entram em vigor em 22 de julho.
A Bolsa fechou em queda de 1,24%, aos 173.825 pontos, segundo dados preliminares, perdendo o patamar dos 176 mil pontos. Segundo Rebecca Nossig, analista de investimentos da Nomad, o mercado operou sob forte aversão ao risco após o anúncio das tarifas pelos EUA.
“O cenário de incerteza comercial e diplomática impulsionou a busca por proteção cambial, fazendo o dólar registrar um movimento firme de alta, enquanto o Ibovespa aprofundou suas perdas ao longo do pregão, refletindo a preocupação dos investidores com os impactos na balança comercial e na rentabilidade das empresas exportadoras”, afirma.
O efeito, no entanto, foi limitado, uma vez que a lista de produtos atingidos pelos EUA trouxe uma série de isenções que preservaram itens importantes da pauta de exportações brasileira. Além disso, a medida já era amplamente esperada pelos investidores.
Entre as empresas do Ibovespa que mais poderiam ser afetadas, segundo os analistas, o movimento foi misto. As ações da Klabin recuaram 0,17%, enquanto as da Suzano subiram 0,53%. Os papéis da Weg recuaram 1,74%, os da Vale caíram 2,05%, os da Embraer recuaram 0,70%.
A forte queda da Vale refletiu a maior sensibilidade da mineradora às tarifas comerciais. Já o desempenho positivo da Suzano foi favorecido pela valorização do dólar, uma vez que a companhia tem receitas atreladas à moeda americana.
Ian Lopes, economista da Valor Investimentos, avalia que a decisão dos Estados Unidos é prejudicial para ambos os países. Segundo ele, tarifas costumam fazer sentido quando há déficit comercial e o objetivo é reduzir o desequilíbrio nas trocas entre os países. No caso do Brasil, porém, ocorre o contrário: os EUA mantêm superávit na balança comercial.
“É algo em que entendemos que ambas as partes sairão perdendo. A medida tende a ser inflacionária para o consumidor americano e prejudicial para o exportador brasileiro”, afirma.
Nesta quinta, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, rebateu as declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria faltado com boa-fé nas negociações em torno do tarifaço.
“As declarações do secretário de Estado Marco Rubio, veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil, são inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro. Rubio ataca de forma grosseira e arrogante o chefe de Estado de um país amigo”, afirmou o ministro.
Para os especialistas, o foco dos investidores agora deve estar nos próximos passos das negociações entre os dois países. Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, afirma que resta saber se o governo brasileiro adotará uma postura mais pragmática, priorizando os efeitos econômicos da medida, ou se optará por um confronto mais direto com os EUA.
Gustavo Moreira, planejador financeiro e MBA em Finanças pela B7 Business School, diz que o principal risco é uma escalada das tensões comerciais. “Uma resposta brasileira pode motivar uma nova rodada de retaliação americana, alimentando o cenário mais negativo de deterioração das relações comerciais e políticas entre os dois países”, diz.
Em Wall Street, o S&P 500 recuou 0,88%, o Nasdaq caiu 1,47% e o Dow Jones perdeu 0,20%. Segundo Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, as ações de empresas de chips e componentes para computadores usados em inteligência artificial registraram fortes quedas, mesmo após a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) divulgar resultados acima das expectativas.
“Percebo que o mercado acredita que essas ações já estão muito ‘caras’. Então, mesmo uma boa notícia não foi suficiente para agradar”, afirma.
No Brasil, o mercado de juros futuros encerrou a sessão com altas. A taxa do DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 fechou em 13,890%, com variação de 0,03 ponto percentual. O contrato para janeiro de 2035 encerrou o dia em 14,420%, com variação de 0,07 ponto percentual.
Já o rendimento da Treasury de dez anos caiu 0,01 ponto percentual, para 4,559%.
Nesta sessão, o índice DXY, que compara dólar a uma cesta de seis divisas fortes, avanço de 0,26%, a 100,74 pontos.
Na manhã desta quinta-feira, o Irã afirmou que o estreito de Hormuz é uma “linha vermelha” inviolável e advertiu que atacará a infraestrutura americana na região do Golfo caso o presidente dos EUA, Donald Trump, cumpra a ameaça de bombardear instalações energéticas iranianas.
Com isso, a escalada das tensões no Oriente Médio e a possibilidade de novos ataques dos Estados Unidos ao Irã seguiram pressionando o mercado de petróleo. Na tarde desta quinta, o barril do Brent era negociado em torno de US$ 84, com queda de 0,78%.




