SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Os mais de 2.100 produtos isentos da tarifa de 25% imposta pelo governo dos Estados Unidos amortecerão o baque do tarifaço na pauta exportadora do país. A leitura é de especialistas em comércio exterior ouvidos pela reportagem, que afirmam que a alíquota efetiva será menor do que os 25% definidos pela gestão Donald Trump após meses de negociações.
“Temos esse número cheio, de 25%, e uma lista de mais de 2 mil produtos isentos. Ao olhar a estrutura de comércio em função das isenções e exceções, a tarifa efetiva é bem menor do que o número cheio”, diz Lívio Ribeiro, pesquisador associado do FGV Ibre e sócio da BRCG Consultoria.
“Na prática, os 25% serão a exceção, e não a regra.”
Pelos cálculos da consultoria MB Associados, a alíquota efetiva é cerca de 16,5% no cenário provável, podendo subir até 18% no mais adverso. O cálculo foi feito com base na pauta exportadora do Brasil para os Estados Unidos em 2025 e leva em conta que nem todos os itens serão atingidos da mesma forma.
Os produtos isentos, segundo a consultoria, são mais da metade da pauta (51,5%). Os itens expostos à tarifa anunciada na véspera, no contexto da seção 301, são 25,2%. Outra parcela significativa (14,3%), como aço primário e produtos semiacabados, enfrenta uma alíquota adicional de 50% pela seção 232.
O restante da pauta se divide em setores menores, mas também impactados, como veículos e autopeças, alumínio, derivados de aço e cobre. Há ainda um grupo de produtos com isenção parcial, como peças de aeronaves e produtos farmacêuticos, que representa 5,5% do total e é tratado como isento no cenário central, mas que, na hipótese mais adversa, passaria a ser tarifado com 25%.
A MB estima que o custo tarifário bruto pode alcançar US$ 2,38 bilhões (R$ 12,1 bilhões) anuais, mas o número só será precisado com exatidão após as decisões sobre a seção 232 e a investigação em curso sobre trabalho forçado.
“O desenho poupa os gigantes da pauta, como petróleo, carne e café, e concentra o ônus na manufatura, replicando o que foi decidido em 2025 [e derrubado pela Suprema Corte]”, diz o relatório da MB, assinado pelos consultores José Roberto Mendonça de Barros, Cristina Mendonça de Barros, Sérgio Vale e Wesley Paixão Bachiega.
As tarifas devem entrar em vigor no dia 22 de julho. O anúncio foi feito na véspera, após o presidente Donald Trump acatar a recomendação do USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA) sobre os produtos brasileiros e encerrar, assim, a investigação da seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, iniciada em julho do ano passado.
Conforme indicado pelo governo americano no anúncio das tarifas em junho, a lista de mais de 2.100 produtos isentos das tarifas inclui café, carne, suco de laranja e outros produtos relevantes no comércio bilateral. Outros produtos foram incorporados à lista após o USTR analisar contribuições de empresas e associações em audiências públicas, como ferro-gusa, café solúvel sem adição de sabor, mel orgânico, hidróxido de alumínio, entre outros.
Isso quer dizer que os itens de maior relevância para a balança comercial do país estão fora da conta, o que diminui o impacto macroeconômico. Ribeiro, do FGV Ibre, afirma que, mesmo no pior cenário possível, o efeito no PIB (Produto Interno Bruto) seria baixo.
“Vamos considerar, arredondando para cima, que as exportações são 15% do PIB brasileiro, e, dentro dessa fatia, os Estados Unidos representam 15% da pauta. Nessa parcela, entrariam os 25% de tarifas. Se fôssemos fazer um efeito 1 para 1, de aumento de preço e queda de venda, estaríamos tirando 25% dos 15% dos Estados Unidos, dentro da fatia de 15% que as exportações brasileiras têm no PIB”, diz Ribeiro.
“Esse número de ‘pior cenário possível’ é muito pequeno. Não chegaria nem a 0,3 ponto percentual do PIB, e ainda pressupõe várias coisas que não se sustentam. Por exemplo, pressupõe que não temos as isenções, que a elasticidade de preço é 1 para 1 e que não tem nenhuma substituição de destino nos produtos afetados.”
No ano passado, a conta oficial do governo Lula (PT) era de impacto de 0,1 ponto sobre o PIB, e ela é “perfeitamente plausível ainda”, afirma Ribeiro.
Apesar do impacto macroeconômico ser limitado, os efeitos sobre setores que não foram incluídos na lista de isenções -como calçados, madeira, máquinas e equipamentos- podem ser sensíveis.
Associações e entidades do setor privado falam em tentar reverter a decisão, mas adiantam que, se uma saída rápida não for encontrada, companhias vão perder vendas e precisar demitir trabalhadores.
O valor diretamente exposto aos 25% de tarifas, conforme a MB Associados, é de cerca de US$ 9,51 bilhões, segundo a base de 2025. Na pauta vigente de 2026, do acumulado do ano até aqui, a exposição é de US$ 4,15 bilhões.
Redirecionar o destino do produto rapidamente não é uma tarefa simples. Isso porque os contratos de comércio exterior são estabelecidos, na maioria, em termos de relações de longo prazo, muitas vezes com políticas específicas para o mercado em questão, que tem demandas diferentes de outros locais.
É provável, segundo Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, que as negociações tentem ampliar a lista de isenções em vez da suspensão completa da tarifa.
“O próprio USTR disse que poderá revisar a lista conforme as negociações. A ‘diplomacia empresarial’, com empresas americanas e brasileiras pressionando contra a medida, já foi o que ampliou exceções e tende a operar de novo”, afirma Trevisan.
No meio tempo, é possível que os setores afetados negociem isenções e benefícios fiscais com o governo federal. “Linhas especiais de crédito, ajuda específica, coisa que observamos já no ano passado no programa Brasil Soberano. O próprio ministro Dario Durigan [Fazenda] tem deixado isso claro em pronunciamentos recentes, dizendo que o governo não deixará para trás setores afetados”, diz Ribeiro.
Por outro lado, na avaliação da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), o tarifaço deve aprofundar a perda de espaço dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro. Em nota, a entidade afirma que a sobretaxa representa um “resultado muito negativo” para a relação bilateral e não prejudica apenas os exportadores brasileiros.
Segundo a entidade, as tarifas tendem a elevar custos para empresas e consumidores americanos, reduzir a competitividade de indústrias dos Estados Unidos que utilizam insumos brasileiros e ampliar a dependência do país de fornecedores asiáticos.
No longo prazo, para a Camarb (Câmara de Mediação e Arbitragem Empresarial), o novo tarifaço deve acelerar uma maior aproximação do Brasil com mercados asiáticos, especialmente a China.




