SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – O estreito de Bab el-Mandeb, uma das passagens marítimas mais estratégicas do planeta, está sob risco de ter a navegação interrompida diante da escalada do conflito entre Irã e Estados Unidos. Um eventual bloqueio da região poderia afetar o abastecimento mundial de energia, elevar os custos do transporte marítimo e provocar impactos no comércio internacional.

A ameaça aumenta os temores de uma nova crise no transporte global de petróleo. Isso porque o Bab el-Mandeb é considerado a principal alternativa ao Estreito de Hormuz, cuja navegação já foi interrompida durante a escalada do conflito no Oriente Médio.

O estreito de Bab el-Mandeb liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Mar Arábico, separando a Península Arábica do Chifre da África. Ele tem cerca de 112 quilômetros de extensão e aproximadamente 32 quilômetros de largura, ligando as costas do Iêmen, Djibuti e Eritreia.

Em seu ponto mais estreito, a passagem tem cerca de 29 quilômetros de largura. Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), praticamente todo o petróleo exportado do Golfo Pérsico que segue em direção ao Canal de Suez ou ao oleoduto Sumed precisa atravessar tanto o Estreito de Hormuz quanto o Bab el-Mandeb.

Devido a posição geográfica, a passagem é classificada como um dos principais “chokepoints”, ou pontos de estrangulamento marítimo, do comércio internacional de energia.

O Bab el-Mandeb conecta mercados da Europa, Ásia e Oriente Médio e também é uma das principais portas de acesso ao Canal de Suez. Em reportagens, a Reuters expõe que desde o fechamento do Estreito de Hormuz uma parcela significativa das exportações de petróleo do Golfo passou a utilizar um oleoduto da Arábia Saudita até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Hoje, cerca de 7% do abastecimento mundial de energia passa por essa rota.

Dados da EIA mostram que, ainda antes da atual guerra, o estreito já movimentava milhões de barris de petróleo diariamente. Em 2018, cerca de 6,2 milhões de barris por dia cruzaram Bab el-Mandeb em direção a Europa, Estados Unidos e Ásia.

A passagem também é utilizada por navios que transportam gás natural liquefeito (GNL) e por parte significativa do comércio internacional de contêineres.

Fechamento deve provocar mudanças significativas. Caso Bab el-Mandeb deixe de operar, navios petroleiros e cargueiros seriam obrigados a contornar o sul da África pelo Cabo da Boa Esperança. Isso aumentaria o tempo de viagem em semanas, elevando os custos do transporte marítimo.

Segundo a EIA, o fechamento da passagem impediria que embarcações provenientes do Golfo Pérsico chegassem ao Canal de Suez pela rota mais curta. Durante os ataques promovidos pelos houthis entre 2023 e 2025, diversas empresas de navegação já adotaram esse desvio para evitar riscos no Mar Vermelho, provocando atrasos logísticos e aumento nos custos do frete.

Um bloqueio simultâneo dos estreitos de Hormuz e Bab el-Mandeb provocaria um choque sem precedentes no comércio mundial e nos mercados de energia. Segundo análise do Centro de Estudos Internacionais Estratégicos (CSIS), embora os houthis ainda não tenham atacado a navegação pelo estreito durante o conflito atual, essa possibilidade continua sendo uma das principais cartas estratégicas à disposição do Irã.

Teerã teria pedido aos houthis que estejam preparados para fechar Bab el-Mandeb caso os Estados Unidos realizem ataques contra a infraestrutura elétrica iraniana. Uma fonte da Reuters afirmou à agência que os rebeldes já posicionaram mísseis e drones próximos ao estreito e aguardam apenas uma ordem para agir.

O analista Torbjorn Solvedt, da consultoria Verisk Maplecroft, fez um alerta. Segundo ele, à Reuters, uma escalada na região colocaria em risco “a única grande rota alternativa para as exportações de petróleo da região”.

Se a ameaça se concretizar, o impacto poderá ir muito além do Oriente Médio. Afetaria preços da energia, cadeias globais de abastecimento, transporte marítimo e o comércio internacional em um momento de elevada tensão geopolítica.