GABRIEL BARNABÉ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A destruição generalizada na Faixa de Gaza causou uma perda de 75% das atividades econômicas somente no primeiro ano de conflito: US$ 2,6 bilhões foram eliminados do consumo médio familiar local. É o que aponta um novo estudo publicado pela revista PNAS Nexus, uma publicação da Academia Nacional de Ciências dos EUA e da Universidade de Oxford.
Segundo os dados obtidos, somente no primeiro ano do conflito, até outubro de 2024, 82% de cada km² da Faixa de Gaza havia sido danificado ao menos uma vez, e 67,9% de toda a área construída foi destruída.
A perda média de luminosidade (fator posteriormente relacionado ao apagamento econômico) nas zonas atingidas chegou a 68,5% –e a 80,1% nas áreas danificadas desde o início da guerra.
A pesquisa, assinada por economistas e geógrafos de quatro instituições, é a primeira a estimar o impacto econômico da guerra usando exclusivamente dados de satélite, sem depender de nenhuma fonte ligada às partes do conflito.
“A guerra foi travada no terreno, mas também na informação”, diz à Folha o italiano Daniele Rinaldo, um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo. “Todo dado era contestado. A única forma de contornar esse problema era olhar para informações que não dependessem de nenhuma das partes.”
A equipe combinou mapas de dano construídos a partir de imagens de satélite e medições de luminosidade noturna, parâmetro consagrado na economia do desenvolvimento para estimar atividade econômica.
A destruição foi mais intensa nos primeiros três meses: nesse período, mais de 60% do território foi danificado pela primeira vez, o que, segundo o estudo, responde pela maior parte do impacto econômico total.
“Estamos capturando apenas o impacto imediato sobre a atividade econômica causado pelo dano físico. Não estamos contando as implicações de longo prazo, o impacto sobre a saúde, o que a destruição e a pobreza vão causar daqui para frente”, afirma Rinaldo.
Ele explica que, para converter a queda de luminosidade em valores econômicos, a equipe calculou a interação entre as características luminosas com o PIB e com gastos domésticos. No primeiro caso, uma análise acerca da guerra de 2014 apontou validade na correlação. Naquele momento, diz ele, “os dois sinais se alinharam muito bem, o que indica que estão medindo algo semelhante.”
O resultado encontrado com os dados relacionados a 2023 e 2024 demonstrou uma perda de 75,3% do PIB de Gaza, número que, em áreas mais severamente atingidas, chegou a 97%.
Os autores também testaram se a queda na luminosidade poderia ser explicada apenas pelos cortes de eletricidade impostos por Israel. Segundo Rinaldo, porém, os resultados permaneceram consistentes mesmo ao considerar diferenças no momento em que diversas fontes de energia foram interrompidas.
Ao correlacionar os dados com as ordens de retirada do Exército de Israel, o estudo concluiu que nenhuma das zonas sob tais ordens escapou de destruição severa, consequentes queda de luminosidade e dano econômico.
As Forças Armadas israelenses repetidamente afirmam não atacar alvos sem ligação com o grupo terrorista Hamas. Os militares negam ter o objetivo de ferir civis ou atingir locais que não sejam supostamente cooptados por terroristas.
Rinaldo afirma que, segundo os dados analisados, é possível concluir uma relação direta e quase instantânea entre parar os bombardeios e aumentar a atividade econômica.
Durante o cessar-fogo de novembro de 2023, por exemplo, a luminosidade nas áreas danificadas teve um aumento de 25% sobre o nível pós-destruição em apenas uma semana, de 24 a 30 de novembro. “As populações são mais resilientes do que imaginamos. Mesmo depois de uma destruição massiva, em uma semana a atividade recomeça”, diz o pesquisador.
Enquanto isso, a operação israelense segue em curso. No fim de maio, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu declarou ter ordenado que o Exército assuma controle de 70% de Gaza. A ordem viola os termos do cessar-fogo de outubro de 2025, em que ficou estabelecida uma presença militar de Israel em 53% do território, com redução gradual da ocupação.
Apesar de estar em vigor há cerca de oito meses, o acordo entre Israel e o Hamas não pausou, de fato, a violência em Gaza.
Ao menos 715 palestinos na região morreram em bombardeios ou por tiros desde o dia 10 de outubro de 2025, segundo o Ocha, escritório da ONU para coordenação de questões humanitárias, com base em informações do Ministério da Saúde, controlado pelo Hamas. O governo em Tel Aviv diz que quatro soldados israelenses morreram no mesmo período.
As mortes de palestinos acumuladas até o começo de abril de 2026 passam de 72 mil. A ONU também fez um alerta de que Israel pode ter cometido crimes de guerra ao matar pessoas em áreas próximas à linha de armistício.

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