BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – Pouco mais de 500 votos livraram a modesta Aue-Bad Schlema, no leste da Alemanha, de se tornar a primeira cidade do país a eleger um neonazista desde a Segunda Guerra Mundial. Stefan Hartung foi superado pelo conservador Marcus Hoffmann no segundo turno municipal, no domingo (7). No primeiro, ele foi o mais votado, com 29%.

A quase vitória de Hartung na cidade de 19 mil habitantes renovou o debate entre políticos e analistas alemães sobre o que fazer com a acelerada ascensão da extrema direita, próxima de eleger seus primeiros líderes de Executivos estaduais, em setembro, passo histórico para um país marcado pelo regime nazista de Adolf Hitler e pelo Holocausto.

Quem tem essa chance, verificada por diversas pesquisas de opinião, é a AfD (Alternativa para a Alemanha), o partido populista que já congrega a segunda maior bancada do Bundestag, o Parlamento Federal, em Berlim.

Hartung, porém, era de uma sigla local ainda mais extremada, os Saxões Livres, que têm atuação política acompanhada pelos serviços de inteligência do país.

No estado da Saxônia, na antiga Alemanha Oriental, Hartung, 37, conduzia sua campanha com um discurso abertamente separatista e xenófobo, em linha com seu histórico pessoal. Foi integrante ativo do NPD (Partido Nacional Democrático da Alemanha), que em 2023 se tornou o Heimat (Pátria). O governo considera a legenda uma sigla de extrema direita e tendências neonazistas.

Já os Saxões Livres, segundo o Gabinete Federal para Proteção da Constituição (BfV, na sigla em alemão), são contrários à ideia de República Federal. Defendem, por exemplo, um “Säxit”, a saída da Saxônia da Alemanha. Na verdade, de uma área bem maior, que inclui até partes da Polônia, dentro de um revisionismo histórico anacrônico sobre o estado, o 10° em tamanho entre os 16 do país.

Hartung, profissional de TI e desde adolescente militante extremista, também organiza passeios com tochas, normalmente em direção a abrigos de imigrantes, cenografia que remete à convulsão social da Alemanha dos anos 1930. Em discursos, pregou a atuação de vigilantes para expulsar solicitantes de asilo e refugiados, em desafio explícito às autoridades.

Observadores notam que, se eleito, Hartung muito provavelmente enfrentaria dificuldades para tomar posse. Teria que, no mínimo, jurar respeito à Constituição, contradizendo o próprio discurso. Mesmo que contornasse a exigência, levando-a como mera formalidade, seria processado e afastado ao menor sinal de desrespeito às leis fundamentais do Estado alemão.

O debate não é diferente em relação à AfD. A sigla de ultradireita, que tem integrantes investigados por discurso de ódio e braços estaduais classificados de extremistas, já se prepara para uma ofensiva jurídica em diversos níveis caso prevalece em Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, em setembro.

No primeiro estado, Ulrich Siegmund, candidato a ministro-presidente, cargo equivalente a governador, com mais de 40% das intenções de voto neste momento, planeja aparelhar os primeiros escalões da administração com até 200 novos integrantes. Associações de funcionários públicos e outros partidos já preparam uma contraofensiva, imaginando que isso não será motivo suficiente para uma intervenção federal.

Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, região que recentemente lidou com a saga da baleia Timmy, no norte do país, Leik-Erik Holmer, principal nome local do partido, promete interferir em questões que extrapolam a competência estadual, como segurança nacional, comunicações e idade penal. A AfD lidera as pesquisas, mas não a ponto, pelo menos até aqui, de conseguir maioria no Parlamento regional.

Preocupação que transparece em discursos e entrevistas é o que os potenciais governadores da AfD fariam com suas polícias —como no Brasil, atribuição dos estados. Há quem defenda, no limite, desobediência civil dos agentes. Outra vertente vê como inevitável a presença de policiais federais para desestimular eventuais atitudes hostis.

Qualquer intervenção, ponderam políticos, pode ensejar ainda mais apoio popular à legenda.